Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012

O Artista, de Michel Hazanavicius

Michel Hazanavicius, realizador das comédias de espiões OSS 117 (Cairo: Nest of Spies e Lost In Rio), decidiu seguir o conselho dos Monty Python e experimentar uma coisa completamente diferente. Mudo e a preto e branco, não há dúvida de que O Artista é sui generis, mas haverá aqui mais do que um mero gimmick formal?
A fidelidade técnica não se lhe nega. Michel Hazanavicius fez a sua pesquisa e adequou ao cinema de Hollywood dos anos 1920 o formato do ecrã, a velocidade da projecção e as tonalidades de cinza, tendo rodado a cores e reduzindo o espectro na pós-produção. Mas, o que mais espanta na onda de entusiasmo generalizado a O Artista é que os prémios se centrem na realização, interpretações e guião. Muito sinceramente, se os aspectos técnicos foram resolvidos, este filme francês, a concorrer no mercado americano sem soltar um pio, é demasiado simplório para merecer atenção.
Um célebre actor do cinema mudo é ultrapassado pelo cinema falado, amarga durante dois anos e é finalmente salvo da miséria por uma starlet, a quem deu o primeiro emprego e que entretanto se tornou uma estrela. Meia dúzia de cartões de texto em inglês evitam a necessidade de um remake, mas não esclarecem o que vê nele Cannes, Globos de Ouro, Director’s Guild, Actors Guild e Óscares.
Jean Dujardin e Bérénice Bejo (esposa do realizador), que já vinham dos filmes OSS 117, protagonizam o melodrama, num trabalho de mimo que para ele se resume a sorrisos abertos durante dois terços do filme e carregar as sobrancelhas durante o que falta e para ela é ainda mais simples, porque não tem de mostrar tanto os dentes.
A moralidade da história também escapa à análise. O herói troça da decisão do estúdio em fazer filmes falados e bate com a porta, lançando-se num projecto próprio, que escreve, realiza, produz e interpreta. O público ignora-o, maravilhado com o sonoro, e ele continua a resistir à mudança, preferindo a comiseração do fundo da garrafa. Só no final se reinventa, não por mérito próprio, mas da starlet que sempre o admirou. E vivam as mulheres, porque este actor chafurda na cegueira. Tanto que a esposa, vendo-o a falhar nos seus deveres conjugais e apenas interessado no cão de estimação, o abandonou.
Nesta trama a pinceladas grossas de trincha, nem a música escapou. Ao ouvido destreinado, a banda sonora parece entretida com um filme diferente, sem se preocupar em adequar-se ou exacerbar as emoções em cena, antes em fazer pássaros chilrearem e pessoas dançarem (o mood só altera durante a depressão do protagonista), mas a actriz Kim Novak gritou violação a plenos pulmões, porque estava a sentir na passarinha a utilização abusiva do love theme do filme Vertigo (Bernhard Hermann). Hazanavicius afirmou ter salvaguardado os direitos de autor com o livro de cheques, mas não houve pomada que aplacasse a comichão de Novak.
Ainda no campo das actrizes, uma curiosidade: paralelamente à participação da actriz Penelope Ann Miller, assiste-se a uma personagem feminina chamada Peppy Miller (interpretada por Bérénice Bejo). Qual terá sido a inspiração? A propósito de Peppy Miller, o protagonista diz-lhe que “Se queres ser uma actriz, tens de ter algo que as outras não têm”, mas não é de talento que ela precisa, afinal, antes de um sinal no buço; um bigode teria sido mais valioso. É sempre um passeio pela memory lane ver Nina Siemaszko, mesmo que de fugida, a pedir um autógrafo.
Fica um pormenor que não se entende. Se Georges Valentin sofre um pesadelo com ruídos de objectos, trânsito e risos humanos, após ter visto a primeira prova da existência de filmes falados, não teria sido apropriado ouvirem-se os actores no primeiro visionamento público de um filme sonoro?
The Artist 2011

2 Comments:

Blogger Sam said...

Gimmick formal é, realmente, uma boa maneira de o descrever. Mas aqui, o gimmick soa também a pastiche e embuste...

2/01/2012 10:45 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

eu nem queria acreditar em tanta pobreza, quando vi o filme, que toda a pompa e circunstância não passavam de marketing viral. o filme não tem nada que se aproveita.

2/01/2012 10:53 PM  

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