J. Edgar, de Clint Eastwood
O cinema tem-nos ensinado que a América foi construída por uma grande maioria de homens odiosos. Este é mais um. J. Edgar Hoover, director do FBI desde a sua criação, construiu a instituição à custa de chantagem a praticamente todos os Procuradores Gerais e Presidentes dos EUA, de maneira a manter o cargo à sua maneira e não ao sabor das correntes políticas eleitas. Indivíduo rancoroso, egocêntrico e sem escrúpulos, com uma ideologia de extrema-direta, a ver radicais, comunistas, oportunistas e gangsters em toda a gente. Morou com a mãe até ao fim da vida dela e guardou no armário a sua homossexualidade para não a desgostar.
Tempo houve em que Oliver Stone era o rei incontestado dos biopics de figuras públicas norte-americanas, mas entretanto o género vulgarizou-se e Clint Eastwood escolheu o director do FBI para se estrear nestas lides. Infelizmente, a História não é o seu forte. Assim como em As Bandeiras dos Nossos Pais (2006), não soube consolidar o seu objecto e perdeu-se em considerações que pecaram por excessivas e desnecessárias, também aqui a duração de duas horas e quinze minutos parece esticar-se eternamente.
Depois de duas obras-primas (Mystic River, 2003, e Million Dollar Baby, 2004), Eastwood perdeu o toque de Midas, do qual apenas lhe sobrou uma réstia para Gran Torino (2008). Mas as duas versões da batalha de Iwo Jima (2006), A Troca (2008), Invictus (2009) e Hereafter – Outra Vida (2010) são, quando muito, exercícios medianos.
Uma palete de cores deslavadas, a entoação teatral de Leonardo DiCaprio e as extensas camadas de protésicos para os constantes flashbacks são o que mais fica na retina de uma história conturbada e confusa, que desliza por um período de cinquenta anos e respectivos presidentes, acções contra os soviéticos, crime organizado e líderes de movimentos de direitos civis, com o caso Lindbergh a ter grande desenvolvimento. No fundo, é uma película que começa com relativo impacto, mas vai morrendo lentamente até à exautão. A dada altura, a incansável e monocórdica narração do protagonista dispersa-se na falta de atenção de uma audiência ansiosa pelos distantes créditos finais. Como últimas notas, Jeffrey Donovan é muito parecido com Robert Kennedy e Christopher Shyer muito pouco com Richard Nixon. Armie Hammer e Naomi Watts são bons apoios para DiCaprio, que não lhe tiram o spotlight, mas também não ficam na sombra.
J. Edgar 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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