Sábado, Fevereiro 04, 2012

Gato das Botas, de Chris Miller

Está por determinar o número de vidas que tira a um cinéfilo um gato que não merece as sete que tem, mas a verdade é que a boa vontade se esgota muito rapidamente para com a ausência de gags e aridez de uma trama pouco imaginativa. Esta é a confirmação de que os produtores de Shrek hipotecaram a frescura em troca de um nome sonante.
Shrek (2002) foi o filme que a Dreamworks trouxe para o ringue para rivalizar com a Pixar e com a Disney, e o Gato das Botas um dos personagens de contos infantis que atiraram para a panela, despindo-o de todas as características do conto de Charles Perrault (1697) e fazendo dele um ladrão com qualidades de espadachim. O Gato já tinha sido moldado pelos irmãos Grimm e até dera por si no bailado A Bela Adormecida de Tchaikovsky, mas estavam-lhe reservados novos baixos.
O spin off do Gato das Botas começou a ser pensado desde os tempos de Shrek 2 (2004), primeiro agendado para o mercado de vídeo e depois como sucessor cinematográfico do próprio Shrek, que em 2010 assinou o último capítulo. Preguiçoso, o argumentista Brian Lynch (Hop, 2011) misturou o Gato das Botas com João e o Pé de Feijão, que eram histórias da Colecção Mãe Ganso, transformou a galinha dos ovos de ouro num pinto de ganso e duas cantilenas da mesma colecção transformaram-se em personagens: Humpty Dumpty e Jack & Jill. Porque o Gato não podia ser sedutor sem uma donzela a seduzir, inventaram uma gata sem unhas, das que não tocam guitarra, mas o coração de gatos tontos.  
Chris Miller (realizador de Shrek 3, 2007) lançou o feijão à terra e esqueceu-se de adubar. Como conto moral, Gato das Botas enreda-se em demasiada desonestidade e fracassa pelo seu grosseiro simplismo. Gato e Dumpty são dois órfãos num asilo da aldeia San Ricardo; o segundo arrasta sempre o primeiro para as suas tramóias e a mais grave foi roubar o Banco, o que os transformou em foragidos. Dumpty volta a aproveitar-se da credulidade do Gato e convence-o a roubar os feijões mágicos de Jack & Gil, que plantados no sítio certo elevarão um pé até um castelo nos céus onde habita uma galinha de ovos de ouro, ouro esse que também irão roubar para compensar os habitantes de San Ricardo. O esquema funciona e trazem com eles um pintainho que põe ovos de ouro. A mãe do pinto vem atrás do rebento, há luta, mãe e pinto vão embora, mas os habitantes de San Ricardo acham-se no direito de conservarem os ovos, razão pela qual o Gato é eleito herói. Moral da história: ladrão que paga roubo com ouro roubado é perdoado.
Dirigida a crianças, a história é imprudente e imoral: não é legítimo à aldeia estornar-se com ouro que não lhe pertence, especialmente depois de ter conspirado para obtê-lo. O herói, coitado, em vez de astuto é otário, deixando-se enganar vezes sem conta pelo mesmo trapaceiro, perdoando-lhe continuamente a ruindade. Que mensagem irresponsável é esta? Além disso, o guião é estúpido: bem vistas as coisas, os conspiradores não precisavam do Gato para nada, podiam perfeitamente ter feito tudo sem ele. 
Descobertos por Hans Zimmer para Piratas das Caraíbas: Por Estranhas Marés, a dupla de guitarristas mexicana Rodrigo y Gabriela dá duas danças aos felinos, mas a coreografia não chega aos calcanhares do tango entre boloteiros de Idade do Gelo III. Americana, de Lady Gaga, também se ouve no final, canção que lembra o Mambo Italiano de Rosemay Clooney. Por fim, a animação 3D não é nada de especial.
Puss In Boots 2011

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