Domingo, Fevereiro 19, 2012

Footloose, de Herbert Ross

Fama (1980) abria a década com asas nos pés, a condensar quatro anos de licenciatura na Escola das Artes de Nova Iorque, passadeira vermelha para uma série de sucesso. A música continuaria a pautar a celulóide, com a sequela de Grease em 1982 e Flashdance e Staying Alive – A Febre Continua em 1983 a prepararem o terreno para um ano cheio de hip hop: Beat Street e e Breakin’ (a sequela estreou no mesmo ano), Estrada de Fogo e Footloose (1984).
Promovido como filme de dança, Footloose é um drama que fica mais no ouvido do que na vista. Manifesto da rebeldia juvenil face à censura imposta pelos adultos, segue o percurso de um jovem urbano que se depara com uma terreola do interior onde é proibido dançar e ouvir música, porque o rock n’roll é sinónimo de comportamento lascivo e debochado. Provocador, decide que a cidade tem grilhetas demasiado apertadas e que o primeiro passo para a revolta é um baile de formatura. A cidade discorda. Discutem. Dançam. Dão-lhe razão.
Michael Cimino fez exigências que o estúdio rejeitou e a cadeira de realizador foi espanada para Herbert Ross, um coreógrafo da Broadway que chegou ao cinema através de musicais com Cliff Richards e Barbra Streisand. Em 1977, o seu filme The Turning Point foi nomeado para 11 Oscares e não recebeu nenhum. Tom Cruise não estava disponível e Rob Lowe lesionou-se, pelo que o papel principal foi para Kevin Bacon, que não era grande bailarino, mas para isso há duplos. Lori Singer, violoncelista na série Fama, não podia ter sido mais luminosa, a sua beleza é tão ofuscante nos trajes de menina do papá como nas calças de ganga justas de square dance. Chris Penn, dois anos antes de aparecer ao lado do irmão Sean em À Queima Roupa (1986), também tinha dois pés esquerdos, mas no caso dele, veio a propósito. John Lightgow e Dianne Wiest não abanam as ancas, mas são uma mais valia. A lista só fica completa com uma referência à energética Sarah Jessica Parker, como sidekick de Lori Singer.
Footloose não se conforma bem com o espartilho de filme de dança, mas tem energia, raiva e o coração no sítio certo. Que só haja dois números de bailarico com coreografia não incomoda, porque a história se aguenta e a mensagem continua actual. A censura não passa só por banir a música e a dança, mas também pela proibição de livros atentatórios a valores conservadores e retrógrados. A mudança de mentalidades começa na pista.
Footloose 1984

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