A Dama de Ferro, de Phyllida Lloyd

Helen Mirren teve A Rainha (2005), a Meryl Streep coube Margaret Thatcher, a Primeira-ministra britânica apelidada de Dama de Ferro pelo jornalista Yuri Gavrilov, em 1976. Ninguém desmentirá que a interpretação de Streep é absolutamente imaculada (aspecto, discurso, maneirismos, locomoção) mas, de resto, o filme é irrelevante, a exagerar no branqueamento escabroso das suas políticas de extrema-direita, à frente do Partido Conservador e dos destinos da Grã-bretanha entre 1979 e 1990.
A Dama de Ferro é um biopic autista, ao ponto de ser irrealista. Para evitar controvérsia ou prejudicar a imagem da retratada, o guião esforça-se por estabelecê-la como uma frágil senhora de idade, uma caricatura confusa entre o passado e o presente, que dialoga com o fantasma do marido para distrair-se da sua própria solidão. A vida política é introduzida em flashbacks espalhados, que seguem uma visão deliberadamente feminista, da primeira mulher a ascender na política inglesa, deixando de lado as suas ideias polémicas, que surgem em quadros erráticos, montagens frugais de oratórias empenhadas mas vazias, porque não têm o enquadramento indispensável que o tempo já consumiu.
Phyllida Lloyd, realizadora do musical Mamma Mia (2008), não estava preparada para a mudança de palco e deixou o argumento de Abi Morgan falsear factos, alterando a cronologia para baralhar os historiadores. A mais odiada Primeira-ministra do Séc XX começa o filme num estado de senilidade desculpatório e, agarrada a uma memória muito selectiva, passa o tempo a recordar os seus dias no poder, como chegou até ele e como lho usurparam, os traidores (tão radical era ela que alienou os membros do próprio Gabinete, mas esperava manter o seu apoio, credulamente, enquanto conspiravam para expulsá-la).
Pautada pela sua própria ambição, Margaret Thatcher farta-se de falar em decisões difíceis pela Inglaterra, esquecendo-se que o país não era a meia dúzia de industriais que beneficiava em vez do povo que se manifestava nas ruas. A sua batalha contra os sindicatos é filmada como se fosse um delfim contra poderosas multinacionais, em vez de organizações de trabalhadores que lutavam contra o desemprego e a pobreza. A Guerra das Malvinas é mascarada pela questão de soberania que Thatcher vendeu ao mundo, em vez do que hoje se sabe, que foi uma despesista medida da senhora se agarrar ao poder, quando era certo que a sua falta de popularidade iria obstar-lhe a re-eleição.
As aulas de dicção são o momento O Discurso do Rei (2010), fazendo recordar a narração Isn’t that charming? Do you know, I really feel I could dance, inserida na faixa única de 60 minutos em que consiste o 13º álbum de Mike Oldfield, Amarok (a comediante escocesa Janet Brown fez a imitação). A Dama de Ferro pouco mais parece ser do que isso, uma folclórica e anacrónica figura de Estado, emblematicamente representada por uma actriz em estado de graça e subtilmente transformada numa pessoa de bem.
The Iron Lady 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo
2 Comments:
A única coisa que me levaria a ver o filme seria a interpretação da Streep mas esta reinterpretação histórica não me apraz...
Eolo, a Meryl é a única coisa meritória no filme. o resto é telefilme que branqueia a história dela, cingindo-se à ideia de mulher que singra num mundo dos homens, em vez de focar-se nas medidas impopulares que implementou. mostra imagens de greves e a resposta dela, mas nunca o que motivou as referidas greves.
quanto à Meryl, está tão boa que até nos esquecemos que é uma actriz e não a verdadeira PM.
Esse é um grande defeito de A Minha Semana Com Marilyn. Por mais que goste da Michelle Williams, ela nunca se confunde com a verdadeira Norma Jean.
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