Sexta-feira, Fevereiro 17, 2012

Anónimo, de Roland Emmerich

Percebe-se agora porque é que a carreira de Joseph Fiennes não singrou como a do irmão Ralph: Shakespeare foi uma farsa, um dramaturgo que nunca existiu, quer se tenha, ou não, apaixonado a tempo dos Óscares. Sempre circularam teorias a atribuir a autoria das suas peças de a terceiros, sendo a mais popular e consubstanciada, desde os anos 1920, a Teoria de Oxford, que reconhece o estilo, métrica e eventos da vida Edward de Vere, um nobre de Oxford, em quase todas as peças e poemas do bardo. Mais ajuda que a cronologia de William Shakespeare de Stratford-on-Avon tenha mais buracos e inconsistências do que um queijo suíço, como inferiu, entre outros, o muito céptico Mark Twain.
Esta é a receita do guião de John Orloff que, a evitar comparações com Amadeus (1984), transforma o drama pseudo-histórico num thriller de conspirações políticas e tragédias palacianas, as quais se cosem com a vida de Shakespeare e de Edward de Vere e descosem como é que a arte do segundo veio a ser identificada como obra do primeiro. Roland Emmerich, realizador que associamos a blockbusters como Dia da Independência (1996) e Godzilla (1998), apadrinhou o projecto desde meados dos anos 90 e pagou toda a produção do seu próprio bolso, para ter controlo total sobre as escolhas cénicas e poder contratar os actores sem pressões externas e a preocupação de ter estrelas.
A recriação de época é feita entre cenários construídos em estúdio e extensos campos digitais, mas é na história que a atenção do espectador, acertadamente, se concentra. Anónimo reescreve a História, inventa e altera a ordem de eventos e peças (no dia da insurreição dos Tudors, estava em exibição Ricardo II e não Ricardo III), chegando a ressuscitar pessoas (o dramaturgo Christopher Marlowe) para assegurar o factor entretenimento.
Rhys Ifans, como Edward de Vere, está tão longe da imagem que o imortalizou em Notting Hill (1999) que se torna o efeito especial mais bem conseguido, com uma representação de peso. Infelizmente, o elo mais fraco é Shakespeare, interpretado por Rafe Spall (filho de Timothy), uma sombra do que poderia ter sido. Ainda assim, Vanessa Redgrave e Joely Richardson, como duas versões da Rainha Elizabeth, garantem o nível que David Thewlis exibe de olhos fechados. A complexa trama faz o resto.
Anonymous 2011

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