Puro Aço, de Shawn Levy
Pugilismo entre robôs comandados à distância, no meio do reencontro entre pai e filho que não se conhecem. A produção invoca o conto Aço de Richard Matheson (o mesmo de Duel, Stir of Echoes e I Am Legend), como inspiração, mas isso é só por ser menos brejeiro do que confessá-lo uma mistura de dois filmes de Sylvester Stallone (Over The Top e Rocky) e Transformers ou, pelo menos, Robot Jox.
Para quem não se lembra de Over The Top (1987), é o filme em que Sylvester Stallone conduz um camião TIR e faz braço de ferro em pequenos bares de estrada, com o filho no assento de passageiro, um miúdo que ele já não via há dez anos, quando se separou da mulher. Acaba por conquistar o amor do filho, perder a esposa (morre), lixar o avô rico que queria a custódia do filho e ainda ganha um campeonato de braço de ferro. Rocky (1976) é um título mais familiar, no qual Stallone é um pugilista Zé-ninguém a quem é oferecido um combate com o campeão e consegue resistir até ao gongo, perdendo aos pontos, mas ganhando o respeito geral.
Quanto a Puro Aço, é o filme em que Hugh Jackman conduz um camião TIR, onde transporta um robot pugilista com que luta em feiras de estrada, com o filho no assento de passageiro, um miúdo que ele não via há 10 anos, quando fugiu da namorada grávida. Esta faleceu e os tios querem a custódia, mas só depois do verão, pelo que pai e filho ficam juntos nesse período, durante o qual conquista o amor do filho, treina um robô pugilista Zé-ninguém, é-lhe oferecido um combate com o campeão e consegue resistir até ao gongo, perdendo aos pontos, mas ganhando o respeito geral.
Sim, parte dos dois últimos parágrafos foi simplificada por copy/paste, assim como, adivinha-se, o argumento de Puro Aço. O pugilismo entre robôs, contudo, levanta algumas questões morais. Basicamente, pai e filho criam laços de amizade através da violência. E ainda se torna mais questionável se atentarmos ao facto de que o robô Atom (pelo que pode intuir-se numa cena onde o robô abraça o miúdo, em vez de mimar os seus movimentos), é inteligente. A ser assim, pai e filho escravizam o robô em lutas demolidoras, sendo responsáveis por cada mossa, e ainda o instam a levantar-se para apanhar mais, de cada vez que este vai ao chão. São como donos de um cão de luta, que treinam para que seja sistematicamente arranhado, mordido e agredido, até um fio da sua existência, por dinheiro.
Pode invocar-se que estas considerações são demasiado intelectuais para uma fita de acção e efeitos especiais de verão, mas nem nisso o filme sucede. Primeiro, o herói é um idiota – todas as suas atitudes denotam burrice, desde apostas que não pode ganhar até aceitar dinheiro em troca do filho. A relação entre os dois é lamechas e com a donzela de serviço (uma apagada Lily Evangeline) é autista. O vilão texano de serviço cumpre apenas função expletiva. Os efeitos especiais são competentes, com boa animatrónica para os robôs imóveis e efeitos CGI com captura de movimento para os combates coreografados, mas o boxe não é muito inspirado, independentemente da supervisão do ex-campeão Sugar Ray Leonard.
Há ainda uma referência a Rocky IV (1985), quando os comentadores desportivos indicam que o robô campeão, Zeus, “parece cansado”. É o mesmo comentário que é feito a propósito de Ivan Drago, o campeão russo, que era considerado invencível mas se cansou de tanto bater em Rocky. Claro que essa informação é anedótica no que toca a robôs e seria impossível a Atom resistir à pancada recebida por um robô maior, mais pesado e electronicamente mais avançado, porque o metal de que é composto iria a amolgar e retorcer, ao ponto de o deixar inoperante. Esta situação abre uma curiosidade que o filme deixou de aproveitar: porque haveriam os donos de Zeus de mostrar incómodo à presença de Atom (um robô obsoleto e inferior em tamanho) e serem insistentes em comprá-lo? A minha teoria pessoal é de que Atom seria um protótipo de Zeus, uma versão de série anterior, perdido de alguma forma (foi encontrado pelo herói no fundo de um ferro-velho) e estes sabiam do seu potencial. Caso contrário, o interesse manifestado pelo pequeno robô de treino é arbitrário. Por estas e tantas outras oportunidades desperdiçadas de dar uma história coerente a tanto metal digital, só resta esperar por uma possível versão extended.
Real Steel 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo

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