Domingo, Janeiro 15, 2012

O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira

Isaac fugiu do holocausto Nazi para o Douro português, camuflado no sotaque nortenho de Ricardo Trêpa, máquina fotográfica a gastar rolos em homens de enxada no ar, entre os socalcos da região demarcada, casamentos e velórios a pagarem-lhe as contas na pensão da Dª Rosa. Não se percebe se é profissional ou naïf, mas a sua vida muda quando é contratado para “tirar uma fotografia à filha de uma senhora muito importante, que mora numa quinta que não fica muito longe”.
Ao imortalizar num flash e papel a jovem falecida Angélica, esta parece abrir os olhos e sorrir para a câmara. Seduzido pela radiância desse efeito, que prevalece após a revelação do rolo, Isaac é visitado na sua varanda pela Viúva Cadáver, que o leva a voar pela noite de Peso da Régua, especificamente a freguesia de Godim e a Quinta Vale de Locaia, através da rota do vinho e de campos invernais surrealistas. Metrópolis estava longe demais e Oliveira não é fã de arranha-céus, mas ainda assim fica a memória de Superman e Lois por cima dos prédios da cidade fictícia mais semelhante a Nova Iorque.
Manoel de Oliveira disse ter o guião de O Estranho Caso de Angélica na sua posse há mais de 60 anos, com o intuito de filmá-lo logo a seguir à Segunda Guerra Mundial. Afinal, decidiu esperar pelo seu centenário para deitar as mãos à obra, o que é feito com o savoir faire a que nos habituou: desinteresse pela direcção de actores, desleixo na direcção de fotografia, sem noção de enquadramento e até credibilidade formal: logo na primeira cena, é possível ver que a chuva provém de aspersores, já que o chão está seco e os personagens, para se ouvirem melhor, põem a cabeça fora do ângulo de protecção do chapéu-de-chuva e não se molham. É um filme de Oliveira, é bom de ver.
Uma das histórias mais acessíveis e divertidas da carreira do realizador, é pena que tenha assinado o argumento, porque a narrativa não desenvolve e os diálogos, na sua quase ausência, são convolutos e estéreis. A mãe da falecida quer as fotos que mandou tirar, a Dª Rosa preocupa-se com o crescente estado de alheamento do hóspede, os outros dois hóspedes falam do estado da economia em termos tão vagos que servem qualquer época e Isaac decorou a palavra Angélica de modo a repeti-la a contento. Obcecado com a morta sorridente, acaba deprimido, a não ser quando esta se materializa e o visita. Moralmente, este fenómeno é curioso, já que Angélica terá morrido logo após o casamento. Ao visitar Isaac em vez do viúvo, ela demonstra pouca consideração pelo cônjuge, mas é também certo que os votos matrimoniais são apenas "até que a morte os separe”.
Oliveira reúne-se da trupe do costume, que inclui Ricardo Trepa, Leonor Silveira, Luís Miguel Sintra e Isabel Ruth. Quanto à entediante banda sonora, se em vez das estáticas selecções de Chopin, interpretadas por Maria João Pires, se tivesse recorrido à originalidade das sonoridades de René Aubry, talvez o filme, como Angélica, ressuscitasse com um sorriso.
O Estranho Caso de Angélica 2010

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