Segunda-feira, Janeiro 02, 2012

O Estado Mais Quente, de Ethan Hawk

A seguir à experiência enriquecedora de trabalhar com Richard Linklater em Antes do Amanhecer (1995), Ethan Hawke escreveu O Estado Mais Quente, um romance simples sobre uma paixão avassaladora de algumas semanas, entre dois jovens artistas, um actor e uma cantora, seguida do desgosto da rotura, que para ele é um grande abalo e para ela é matéria de circunstância.
O actor, que se notabilizou pelo drama Clube dos Poetas mortos (1986), fez uma pausa na representação depois do sucesso de Dia de Treino (2001), para se dedicar ao seu segundo romance, Quarta-Feira de Cinzas. Em 2004, co-escreveu o argumento de Antes do Anoitecer, com Richard Linklater e a co-protagonista Julie Delpie. Esse projecto, sequela tardia de Antes do Amanhecer, inspirou-o e a Delpie a saltarem para trás das respectivas câmaras. Dois Dias em Paris (2007) é muito superior a O Estado Mais Quente (2006).
 
Os erros de Ethan Hawke começaram no casting. Para um protagonista que repete diversas vezes ter 21 anos, contratou Mark Webber, um imprestável de 26 anos que nenhuma mulher quereria namorar. Compreensivelmente, Catalina Sandino Moreno, escolhida para consorte, olhou para a calvície dele, de fios da nuca embaraçosamente repuxados até à testa, e torceu o nariz. Este desagrado, que arriscaria a chamar de asco, terá prevenido que ela pudesse manifestar o menor relampejo de interesse pelo moço, o que é pena, porque na primeira parte do filme deveria ter simulado algo próximo da paixão. Daqui se retira que o realizador/argumentista também se desleixou na direcção de actores.
Hawke adaptou o seu próprio livro, mas empolgou-se e perdeu o rumo. Em vez de um romance conciso e confinado a uns aceitáveis 90 minutos, insistiu em perseguir a meta das duas horas de duração, improvisando e amplificando a verborreia incontinente dirigida ao umbigo, lenta e improdutiva, a queimar a borracha dos pneus no Texas e a matar mosquitos no México. A relação do par é irrealista desde o início, confundindo tédio com idílio, a fragilidade de Mark Webber a ter contraponto na apatia de Catalina Sandino Moreno, tornando patéticas as reacções de coração partido e absurda a precipitação anterior de quase casarem por impulso.
Em suma, O Estado Mais Quente peca pela má caracterização das personagens (que decidem pensar e agir fora da caixa estabelecida pelo livro, muito mais coerente), pelo elenco mal escolhido, pela ausência de direcção de actores, pela excessiva duração, pela falta de rumo. A versatilidade de Ethan Hawke enquanto actor não encontrou paralelo na escrita nem na realização. Michelle Williams passeia-se, etérea, pelo set, e é a única capaz de incendiá-lo com a sua intensidade.
The Hottest State 2006

2 Comments:

Blogger ArmPauloFer said...

É um filme razoável e do que me recordo achei interessante. Também coitado do rapaz neste filme... teve mesmo um pai de merda!

1/03/2012 2:37 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Armindo, custou-me mesmo aguentar o filme até ao fim (vi-o com diversas pausas para bocejar), é daqueles que dá vontade de abandonar a meio. por isso, não poderia chamá-lo de razoável. tem algumas frases soltas interessantes, mas poucas.

o pai e a mãe separaram-se quando ele tinha 7 anos e a mãe levou-o para NYC, enquanto o pai permaneceu no Texas e criou nova família. o pai foi ausente no seu desenvolvimento enquanto adolescente, mas não vejo que revelo pode isso ter na história de "amor" do filho...

1/03/2012 2:49 PM  

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