Sábado, Janeiro 28, 2012

Millenium1: Os Homens Que Odeiam As Mulheres, de David Fincher

O cinema sueco foi revitalizado em 2009, com a adaptação cinematográfica do sucesso literário de Stieg Larsson, a trilogia Millenium, publicada em 2005. O primeiro capítulo foi entregue a Niels Arden Oplev e os restantes a Daniel Alfredson. Agora, a tripla entrega foi feita a David Fincher, para convertê-los para a língua anglo-saxónica.
Se algum remake era perfeitamente desnecessário, era este. Dito isto, é impossível não comparar ambas adaptações, porque partilham o enredo, o estilo e estão historicamente próximas. Pode, inclusivamente, classificar-se como fincheriana a atenção ao detalhe e o profissionalismo exemplar de Niels Arden Oplev, tenso e crispado na perícia com que conduziu o thriller original.
Não pode deixar de ser curioso, no mínimo, que seja precisamente David Fincher, (Sete Pecados Mortais (1995), Clube de Combate (1999), O Jogo (1997) e Sala de Pânico (2002) o responsável pelo remake. Mas, neste braço-de-ferro, ganhou o dinamarquês, com um filme mais orgânico, fluido e misterioso. Fincher teve contra si uma pressão redobrada, é certo, mas a sua aposta peca por excesso de encenação, os eventos mais determinantes parecem construídos como blocos estanques, as alterações cirúrgicas no guião são reprováveis e a escolha de actores é infeliz.
Convém frisar que David Fincher já não é infalível desde Zodíaco (2007). O Aborrecido Caso de Benjamim Button (2008) e A Rede Social (2010) deixaram muito a desejar e o caso repete-se, começando nos despropositados créditos iniciais. Apesar do protagonismo de Daniel Craig, Os Homens Que Odeiam As Mulheres não é um fascículo de James Bond e este vídeoclip de cabeças femininas cobertas de petróleo e quebradas em estilhaços, para além de não ser visualmente estimulante, não encontra, excepto por parecer odiá-las, relação com a história que se segue. A intenção de Fincher foi destacar-se do filme original, desorientando o espectador. Consegue-o, mas o prémio é nulo.
A Adaptação do livro ficou a cargo de Steven Zaillian, oscarizado pela Lista de Schindler (1992) e com mais três nomeações (incluindo a deste ano, por Moneyball), mas cuja balança pesa negativamente por Hannibal (2001) e Gangues de Nova Iorque (2002). Quanto a Os Homens Que Odeiam As Mulheres, Zaillian, provavelmente por causa do sucesso do filme original, que rendeu cento e cinco milhões de dólares globalmente (dez milhões dos quais nas bilheteiras norte-americanas), decidiu alterar alguns elementos-chave da trama, nomeadamente no clímax e desfecho, mas não foi feliz nas escolhas, que soam apenas a versões B.
Quanto ao elenco, Daniel Craig e Rooney Mara foram contratados para a trilogia, ainda que a modesta receita de bilheteira do primeiro tomo quase tenha deixado o projecto em suspenso. Seria a segunda vez que Daniel Craig passava por essa experiência, depois de A Bússola Dourada (2007). Como Mikael Blonkvist, Craig é fisicamente mais imponente (diz que ganhou peso para o papel) do que Michael Niqvist (o homónimo sueco), mas peca por uma prestação cansada e abatida, ao passo que Niqvist se mostrava mais focado na investigação e incomodado com a derrota judicial, onde fora injustamente condenado por difamação, o que no original implicava pena de prisão e na versão americana só o dever de indemnizar.
Quanto a Rooney Mara, as expectativas eram muito superiores, por causa da interpretação aclamada de Noomi Rapace, uma autêntica força da natureza, gato bravo de olhar inquisitivo, onde se sentia, a par da agressividade latente, a inteligência que as sobrancelhas oxigenadas de Rooney Mara evaporam. De constituição frágil e sem olhar ninguém nos olhos, esta americana de 27 anos tem ainda a agravante de não passar por 23 (Rapace também não, mas tinha tudo o resto a correr de feição), a idade da personagem.
Podem saltar este parágrafo, sob pena de revelações precoces, mas a verdade é que não chega a constituir surpresa que o culpado seja o personagem interpretado por Stellan Skarsgard, actor de expressão odiosa, mesmo quando sorri. Afinal, este é o homem que humilhou a esposa de mil e uma maneiras, a mando do igualmente misógino Lars von Trier (Ondas de Paixão, 1996). Mas, também, porque, de entre os suspeitos, é o único que o guião dá minimamente a conhecer, com quem Blomqvist chega a privar, e um dos maiores prazeres de um escritor policial (e por isso também uma das suas fraquezas, no que concerne ao perigo da previsibilidade), é familiarizar o leitor com o assassino, para depois o surpreender com a sua verdadeira identidade. Claro que isso só funciona quando há vários suspeitos em pé de igualdade e o culpado é o que menos indícios apresenta. 
Oportunidade tristemente perdida para David Fincher de voltar à velha forma. Um Daniel Craig desmotivado e uma Rooney Mara tímida fazem logo estalar a pintura, mas é a dispersão, em vez de concentração, da narrativa, o que mais desilude. No original, havia duas histórias paralelas, que eventualmente se sobrepunham (quando os protagonistas juntavam esforços), mas o puzzle era de tal forma intenso que as sabíamos peças do mesmo jogo. No remake, as cenas que ajudam a caracterizar Lisbeth Salander parecem descartáveis, como se o todo se aguentasse sem elas. A violação, por exemplo, é muito mais perturbadora no filme sueco, enquanto que aqui é um pró-forma, com o público mais preocupado em absorver a nudez da actriz do que em contorcer-se, face ao choque, na cadeira.  
No pior dos pecados, a personagem de Lisbeth Salander é tratada com desprezo por Fincher e Zaillian. No final do filme, é ela quem, segura e implacável, entrega à justiça aquele que representa a pedra no sapato de Blonkvist, numa oferenda única a este indivíduo que ela vê como o primeiro  homem em quem pode confiar desde há muito tempo. Mas o remake reduz isso a um fait-divers, que ela tem de completar com um blusão de couro, como se Blonkvist fosse dar mais importância a uma peça de vestuário do que à queda de um inimigo. E, frágil, ela ainda se põe a jeito de um desgosto amoroso, em vez de ser Blonkvist o elo confuso na sua atracção pela mulher que lhe salvou a vida, não uma, mas duas vezes (por falar em salvar a vida, de onde surge aquele providencial taco de golfe quebra-maxilares, quando nada é indicado sobre Martin Vanger, cujo desporto é a caça, se dedicar a tacadas na neve?). Nesta machista reviravolta mainstream, fica a dúvida no valor de investigador de Blonkvist, já que é a filha dele quem identifica as notas de Harriet como bíblicas e Salander quem converte essas notas na identidade das vítimas; tudo o que ele faz é recolher fotografias…
he Girl with the Dragon Tattoo 2011

2 Comments:

Blogger ArmPauloFer said...

É curioso que tudo o que tinha a dizer sobre este remake... disseste-o. Muito bem. Exaustiva review, merecida pois estamos a falar de um bom filme sim mas que existia já uma versão melhor em todos os aspectos.

"A intenção de Fincher foi destacar-se do filme original, desorientando o espectador. Consegue-o, mas o prémio é nulo."
Tudo verdade! Subscrevo e só nesta frase está um mundo sobre o significado deste remake: não havia necessidade.

Percebe-se uma só coisa: há muita gente que não tem coragem de ver um filme que não venha de Hollywood. O filme sueco é estrangeiro e se vem de fora do "sistema" não é sequer entendido como filme para ser visto. Enfim...

E este como vem com estatuto e assinatura de prestigio, como uma obra de luxo de Hollywood, será sempre o que contará.
Os Oscars já fizeram a parte deles... já nomearam a Rooney Mara... mas tão cedo não veremos seja porque filme for, a sueca Noomi Rapace receber semelhante distinção. É o sistema...

2/03/2012 12:08 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Armindo,

obrigado pela tua opinião, que tão pouco consensual se tem demonstrado.

é verdade que é uma crítica extensa, mas, ainda assim, parece que ficou tanto por dizer, depois daquela discussão com o loot no blog do keyser.

há gente que acha que david fincher é deus e quando caga tem de ser ouro. esquecem-se, ou ignoram, por exemplo, que niels arden oplev, o realizador do original, já tem 50 anos, não é nenhum novato que precise de lições de fincher, um realizador cuja carreira quase nem descolava, tal foi a opinião negativa que o seu filme de estreia, Alien 3, reuniu. se não fosse se7en, talvez a sua carreira tivesse sido bem mais curta.

eu compreendo que, quem viu primeiro a versão americana, tenha ficado impressionado com a história, mas é indesmentível, como já o disse o crítico roger ebert, o original é melhor, mais coeso e conciso. é um filme cheio de nuances, ao contrário das colheradas óbvias que fincher enfia pela goela abaixo do cinéfilo. nomeadamente, como discussão com o loot, sobre o safismo de lisbeth: era escusado que ela andasse a engatar na discoteca, não serviu de nada. ou que ela tenha escarrapachado ao blomkvist, numa única frase, sem o peso que uma afirmação dessas deveria ter comportado, que tinha queimado 80% do corpo do pai. é informação a mais, que devia ter sido guardada para o segundo filme, como fez o sueco, que colocou o público a remoer e a pensar nas imagens desfocadas de pesadelo em que lisbeth recorda o que fez, mas não se percebe bem a quem nem o quê. intui-se, mas não é dado de bandeja.

e lisbeth é o elo mais forte do filme, ela fornica homens e mulheres por necessidade física de conexão, mas não se apaixona. desenvolveu respeito por blonkvist antes mesmo de conhecê-lo, demonstra-o no relatório que escreveu sobre ele, e depois de o conhecer sente que pode confiar nele, o que é raro para ela, e sente necessidade de fazer-lhe um agrado. mas esse agrado é uma enormidade, é abrir contas em paraísos fiscais e reconduzi-los ao património de wennerström, de maneira a que este seja desacreditado publicamente. não era preciso comprar-lhe um blusão de couro, depois de uma prenda tão fabulosa como a anterior.

quanto a noomi rapace, ainda não vi o sherlock 2 e tenho há dois anos o filme dela Daisy Diamond, à espera de legendas. nesse filme sueco, ela faz de prostituta e actriz pornográfica, incapaz de ter prazer e com um bebé às costas.

espero que ela se safe em hollywood, porque é uma grande actriz.

2/03/2012 8:11 PM  

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