Sem Tempo, de Andrew Niccol

Já diz a máxima, tempo é dinheiro. No futuro (pelas incongruências, mais valia ser uma realidade paralela), a moeda de troca, em vez de dinheiro, será o tempo. A vida mede-se em horas, que se compram e custam a ganhar. Ao concluir os 25 anos, um relógio liga-se dentro do ser humano e este tem exactamente um ano de vida, que pode prolongar pela aquisição de mais, mas tem de o gastar para adquirir os consumíveis que lhe permitem sobreviver. O herói, que normalmente não tem mais do que o suficiente para chegar ao dia seguinte, vê-se com um século de vida e por segundos não consegue salvar a mãe. Órfão e revoltado, ruma à cidade dos ricos (imortais, por terem muito tempo) para compreender como uns podem ter tanto e outros tão pouco e reverter a situação.

A partir daqui, Sem Tempo transforma-se numa mistura de Bonnie e Clyde e Robin dos Bosques, com o herói e a sua companheira a roubarem Bancos e a distribuírem os proveitos pelos pobres, ao mesmo tempo que são perseguidos pela polícia e pela máfia local. Basicamente, o herói põe em prática os princípios básicos da revolução socialista, mas esta miscelânea de géneros, mascarada de tech noir em versão de cordel, tanto podia pender para o idiota como para o engenhoso, dependendo do que se fizesse do conceito. No caso, desperdiça-se a oportunidade.

O slogan “é roubar se já foi roubado?” mantém-se tão válido como no tempo de Guilherme Tell, William Wallace ou Rob Roy. Aliás, a economia actual é exactamente como nos tempos monárquicos, onde o rei evaporava o erário público e subia os impostos ao povo para garantir que o dinheiro continuava a fluir na corte. É uma pena que o público das americanices não saiba fazer correlações de ideias.

Sem Tempo fracassa como reflexão e aventura, acusando dispersão no seu percurso errático e coleccionando vulgaridades como quem não sabe reconhecer uma boa ideia. Andrew Niccol é o argumentista de The Truman Show – A Vida em Directo (1998) e realizador/guionista de Gattaca (1997), S1m0ne (2002) e O Senhor da Guerra (2005), mas Sem Tempo é o seu pior registo até à data.

O processo de envelhecimento interrompe-se aos 25 anos, pelo que essa deveria a idade de todos os actores do filme, ou terem aspecto disso, o que não se verifica. Justin Timberlake tem 30 anos, Vincent Kartheiser 32, Matthew Bomer 34, Cyllian Murphy 35, Johnny Gallecki 36 e Alex Pettyfer, para cúmulo oposto, 21. As mulheres são as que mais se aproximaram: Amanda Seyfried tem 25 e Olívia Wilde 27. Dito isto, Seyfried nunca esteve tão apetitosa, Bomer e Wilde têm papeis muito secundários e Timberlake, apesar dos recentes trabalhos serem simpáticos, mas ainda não tem arcaboiço para carregar um filme às costas.

Harlan Ellison, que Stephen King (no livro Dança Macabra) elegeu como o pai do terror moderno, acima de Rod Serling e de Ray Bradbury, processou o estúdio sob acusação de plágio, devido a diversos elementos de Sem Tempo serem reconhecíveis no seu conto "Repent, Harlequin!" Said the Ticktockman (que em 1966 arrecadou os prémios Nébula, Hugo e World’s Best Science Fiction), mas desistiu da acção depois de assistir à película. Compreende-se que tenha renunciado à pretensão de ter o nome nos créditos, não é abonatório ser associado a este filme.

Para terminar, os erros mais crassos: de uma cena para outra, Will e Sylvia arranjam um camião com que efectuam um assalto a um Banco; de uma cena para outra, passam do guetto à cidade dos ricos, sem serem detectados, quando, anteriormente, ficou demonstrada a necessidade de atravessar quatro bloqueios; Will infiltra-se no meio do grupo de guarda-costas de um milionário, passando despercebido, apesar de ser o único careca e ter a cabeça a prémio; o chefe da polícia recusa o suborno de um milionário, mas a sua rectidão não se manifestou quando revelou indiferença para com os roubos de tempo no guetto (e, se o mundo é governado por esses milionários, não foi uma atitude muito inteligente); o mesmo chefe de polícia faz algumas insinuações sobre o pai de Will, 20 anos antes, ter tido ideias revolucionárias e morrido por isso, mas nunca chega a ser claro se o matou. Um elemento interessante: o braço de ferro; um demasiado óbvio: a polícia usar gabardina de couro preto tipo Gestapo e botas de tropa.

In Time 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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