Segunda-feira, Dezembro 12, 2011

Melancolia, de Lars von Trier

O homem que compreende Hitler abre o seu novo filme como quem compreende o que Terrence Malick quis fazer com A Árvore da Vida (2011), oferecendo-nos uma história suspensa que reduz melancolia a letargia, numa síntese monocromática de paleta sépia para um casamento nocturno e verde desmaiado para as cenas diurnas. A desculpa? Melancolia não é uma psicose, mas o nome de um planeta em possível rota de colisão com a Terra, o que poderá acontecer dentro de dias. Ah, então é um filme catástrofe? Não, é mais para o melancólico.

A história divide-se em duas partes (um casamento e o fim do mundo), cuja cronologia não fica clara. Parecerem seguidas, mas uma festa de casamento soa absurda na contagem decrescente para um possível fim do mundo e transforma a ameaça de despedimento (movida pelo patrão à noiva) em anedota (a dias do fim do mundo, alguém se preocupa com o emprego?). Mesmo que o casal insistisse em casar, é duvidoso que tantos convidados fizessem pausa às suas próprias preocupações para viajarem a um local ermo no campo e festejarem a felicidade de terceiros. Além disso, na primeira metade, não é feita nenhuma alusão ao perigo iminente, o que, apesar de ter sido intenção do realizador, não é compatível com a enormidade da situação.

A cena de abertura em câmara lenta é um videoclip para o prelúdio da opera Tristão & Isolda, de Richard Wagner, ao que se segue uma utilização abusiva e falsamente experimental da câmara ao ombro, daquelas que não param quietas nem que a qualidade da cena dependa disso, perdurando a sensação de que o desequilíbrio da imagem se deve a algo tão mundano como um operador de câmara com vontade de ir à casa de banho. As questões existenciais que se ouvem não passam de trivialiades, diatribes que qualquer conversa acesa e bem regada ultrapassaria em conteúdo, resumindo-se à acusação das pessoas serem más e o fim do mundo uma coisa boa. Outra Terra (2011), que tem por fundo a presença inesperada de um segundo planeta Terra, visível no céu, aborda estas e outras questões com muito mais sensibilidade e inteligência.

Demasiado presunçoso para um produto sem história para além do esboço, ficam-se as imagens dispersas de um casamento desconfortável, onde a noiva vai apática e os convidados obnóxios, e um planeta mau a desafiar Michael Bay (Armagedão, 1998) e Mimi Leder (Impacto Profundo, 1998), mas a copiar Danny Boyle (Sunshine, 2007). Claire, a preocupada irmã da melancólica Justine, em vez de ver notícias na televisão que apazigúem o seu medo, limita-se a uma rápida pesquisa na Internet para compreender o percurso do penalty destruidor. Pouco convincente e sem paixão, Melancolia é, essencialmente, uma estopada.

Kirsten Dunst, a protagonista, esteve internada por depressão em 2008, antes de filmar All Good Things – Entre Verdades e Mentiras (2010). Esse filme marca o seu primeiro nu frontal, mas até Melancolia nunca permitira um close up do seu aconchegante busto. Charlotte Gainsbourg e Kiefer Sutherland acompanham-na na segunda parte do filme, com a primeira metade a ser partilhada igualmente por John Hurt, Charlotte Rampling, Udo Kier, Stellan Skarsgard e o seu filho Alexander.

Melancholia 2011

5 Comments:

Blogger ArmPauloFer said...

Discordo da critica, sendo que até o que mais me agradou foi a seguinte linha (e curiosamente nem sequer é sobre este filme):

"Outra Terra (2011), que tem por fundo a presença inesperada de um segundo planeta Terra, visível no céu, aborda estas e outras questões com muito mais sensibilidade e inteligência."

Gosto muito do "Another Earth" (8/10) e sim, acho-o mais filme que o "Melancholia" (7/10).
É uma critica e uma opinião válida, como tantas outras por aí.
Óraite!

12/13/2011 11:53 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Armindo, todas as opiniões são válidas, se consubstanciadas. pessoalmente, preferi a linha "Ah, então é um filme catástrofe? Não, é mais para o melancólico." :P

Também achei o Another Earth muito melhor filme:
http://axasteoque.blogspot.com/2011/11/outra-terra-de-mike-cahill.html

12/13/2011 12:09 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

entre as outras coisas que achei anedóticas, sobrepõe-se esta: o sobrinho falava de uma caverna ou gruta mágica, mas Justine constrói a armação de uma tenda como a dos índios e chama-lhe gruta mágica. qual é o miúdo que não respondia "isto não é uma gruta"?

a melancolia é uma forma de depressão grave, que só em casos extremos se manifesta pela falta de coordenação motora, o que é o caso da de Justine. teria dado mais alguma credibilidade vê-la tomar alguma medicação, ou pelo menos a irmã ou o jack bauer perguntarem-lhe se a tinha tomado.

são pequenas coisas que uma rescrita do guião podia ter ajudado, mas que como aparecem no filme soam a pouco ou a falso.

é como a alcunha steelbreaker que o sobrinho dá à tia. pergunto-me se isso era uma alcunha que os adultos lhe davam (por ser uma feroz profissional) ou se era só a criança que lha dava, o que fica por explicar.

12/13/2011 12:39 PM  
Blogger ArmPauloFer said...

Se formos por observações assim, pior é o facto de existir um planeta que esteve escondido atrás do sol e que passou a navegar pelo espaço livremente (uma massa gigante sem ter atracção gravitacional...).

É um recurso utilizado para justificar a psique depressiva em que se encontrava Von Trier e que ergue com isso este filme, onde nada se pode justificar por representar o estágio de uma mente com temores injustificados (os depressivos pensam desconexos - tal como o filme bem o demonstra).

O filme divide-se em duas partes:
- uma é a crescente queda racional de Justine, cujo casamento a bloqueia cada vez mais, com a irmã a tentar ser o suporte dela;
- a segunda parte inverte-se e passamos a ter foco na irmã, que apresenta outro tipo de gradual bloqueio - e aqui a ironia de ser a Justine, em estado deplorável, que é quem aceita os factos externos e isso a liberta em parte, acabando por ser um inesperado auxilio familiar no meio de tanta alienação.

A nível de argumento, é um filme sobre o vazio mental, perante uma familia desconexa. Von Trier mais uma vez faz a expiação habitual sobre as mulheres mas desta vez larga os extremos de situações a que as submete a algo mais leve, colocando-as á deriva mental e fisica. Ele dá-lhes o fim do mundo...

A nível técnico é visualmente cativante a formalidade com que ele filma, com que ele faz as mise-en-céne e as enquadra com alto rigor na sua filmagem com os principios do seu Dogma e adiciona outros planos aéreos (e diversos grandes planos) e outros com pouco habituais efeitos especiais. É uma realização artística, onde os tons sombriamente dourados da primeira parte do casamento cedem aos tons frios da segunda parte.

Eu gostei do filme mas ressalvo que acho que tem sido sobrevalorizado em demasia, apesar de nele ir gradualmente apresentando uma beleza invulgar de abstracionismo artistico (daí não se poder servir da racionalização dos factos) que faz um delicioso contra-ponto europeu face ao comum visto a sair de produções americanas. É mais uma experiência sensorial que se nos assola enquanto espectador. Por isso tudo, o classifico por 7/10.

12/13/2011 1:30 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Armindo, não é a mesma coisa. engolir a parte "ficção científica" não é o mesmo que ignorar as acções das personagens humanas.

são pequenos apontamentos, que lhe faltam para aproximar o espectador da trama.

12/13/2011 1:44 PM  

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