Attenberg, de Athina Rachel Tsangari
Abre inesperadamente com uma iniciação ao linguado e condensa apartes de sincronia pateta em bata e botins mas, no fundo, Attenberg é um drama sensível e profundo sobre uma jovem de 23 anos cujo amadurecimento forçado, pela iminente morte do pai, de quem cuida e acompanha aos tratamentos de diálise, obriga ao despertar sexual que ela, na sua introversão, rejeitara até então.
Enquanto percorre os corredores da morte empurrando a cadeira de rodas do pai, os da sexualidade fá-los à revelia, como se a morte dele implicasse abrir as portas a esse caminho, que a timidez e o desconforto com o próprio corpo sempre objectaram. O tema da morte é suavizado por conversas com o pai, que antecipam o inevitável, e o da sexualidade com lições dadas pela única amiga, sexualmente promíscua, que simultaneamente lhe causam asco e curiosidade, e pela entrega a um desconhecido simpático.
O cenário é importante para a compreensão da história, um lugar ermo e inóspito que alberga uma fábrica e os seus trabalhadores, branco e vazio numa escarpa que se abre ao mar. O pai de Marina é culto e ela aprende com ele o desajuste da Grécia face ao restante mundo industrializado e como o país, como os jovens, não está preparado para os desafios do futuro. Este pessimismo e a falta de rumo de Marina pretendem-se um espelho da sociedade grega, que terá passado da sobrevivência agrária à tecnologia sem ter tido uma revolução industrial, e esse fosso deixou-a e ao país sem orientação.
Com três filmes escritos e realizados por si, Athina Rachel Tsangari consolida uma visão própria da Grécia de origem com a desenvoltura de um curso superior de cinema tirado nos EUA. Ariane Labed, a protagonista, estreia-se neste papel que lhe trouxe o prémio de melhor actriz no festival de Veneza, onde a realizadora também esteve nomeada.
Attenberg 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo

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