Segunda-feira, Dezembro 26, 2011

As Serviçais, de Tate Taylor

Baseado no romance homónimo de Kathryn Stockett, As Serviçais é um drama passado no início dos anos 60, no Estado norte-americano do Mississipi, e tem por centro a luta pelos direitos civis e o racismo a que as criadas negras eram sujeitas em lares da classe média branca. 
A História continua a ensinar-nos que o que é ilegal nem sempre é errado, apenas contrário ao que é imposto por quem está no poder. No caso, a publicação de um romance escrito por um branco a descrever as condições indignas vividas pela comunidade negra ou a reivindicar os seus direitos civis. Contudo, é ténue e indistinta a linha entre o que um povo reprimido pode aguentar e o que faz a água transbordar da panela e é certo que, mais cedo ou mais tarde, a injustiça força aqueles que têm medo à revolta.
As Serviçais é um drama social adocicado sobre a questão racial, durante um período em que a balança estava ainda mais desequilibrada do que hoje. Acredita-se que tenha boas intenções, mas é indesmentível que o seu tratamento presunçoso só ofende a quem a situação já repugnava, quase mais saudosista do que crítico. Eventualmente, lá nos vai conquistando aos pontos, muito especialmente por interpretações como a de Octavia Spenser, no papel de Minnie. Que filmes destes sirvam, pelo menos, para mostrar que a democracia não é um dado adquirido mas em risco constante e que o conceito é, à primeira oportunidade, distorcido pelos estratos sociais superiores.
Claro que um olhar atento descobre a careca maniqueísta de As Serviçais. É uma obra no feminino, com os homens a não passarem de papel de parede. Não há patrões a quererem abusar das criadas negras, as patroas governam a casa sem que os maridos tenham uma palavra, os lares negros têm homens ausentes ou agressivos, a bully da cidade tem mão pesada sobre todas as comadres, ao ponto de decidir quem é eleito e quem é proscrito, mas uma palavra errada no jornal foi suficiente para que as pessoas tivessem o desplante de lhe encher o jardim da frente com vasos sanitários.
Emma Stone pode ter conquistado o coração de Ryan Gosling em Amor Estúpido e Louco (2011), mas é pouco credível como a jovem jornalista de As Serviçais. Viola Davis é o fio-de-prumo do filme e Octavia Spenser a costela humorística. Bryce Dallas Howard vinga-se da estagnação em que a sua carreira caiu desde A Senhora do Lago (2007) e Jessica Chastain tem com ela uma batalha de ruivas. Este é o ano da camaleónica Chastain, com quatro filmes estreados (A Árvore da Vida, A Dívida e Take Shelter) e boas críticas. Tate Taylor, realizador, é amigo da escritora Kathryn Stockett desde crianças, tendo obtido dela os direitos de autor de As Serviçais, em 2008, antes mesmo do livro estar publicado.
The Help 2011

4 Comments:

Blogger Marco said...

O livro aprofunda muito mais uma série de temas, ainda que seja uma obra no feminino. Concordo contigo quando dizes que há laivos de saudosismo, mas essencialmente por uma série de mulheres que criaram gerações e que eram descartadas. Octavia é deliciosamente brilhante, mas a relação dela com a sua patroa é superficial quando comparada com o original. Eu gostei bastante, mesmo assim, mas deve ser o Sul dos EUA que me faz ser parcial.

12/26/2011 10:48 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Maaaaaaaaaaaarco :D

Adiciona-me, anda, para eu ter mais um follower ;)

pois, acredito que o livro seja muito mais complexo e pormenorizado, mas não perde o ar sobranceiro de livro sobre criadas negras escrito por branca que nunca passou por isso...

o teu south é o do new orleans ou do texas?

12/27/2011 12:12 AM  
Blogger Isabel said...

Li o livro muito antes de o filme estrear. É mais polémico, mais dramático. Deu-me mais gozo ler o livro do que ver o filme. Tem todos os pontos bons que assinalaste, mas em certos pontos suaviza umas coisas, como tu dizes: numa colmeia de patrões racistas, nenhum patrão tratava mal as criadas e as mulheres é e que tinham a palavra, como a mãe da protagonista, Skeeter? Esse ponto falha tanto no livro como no filme. Apesar de espremido para caber nos minutos que dura, com os pontos mais fortes do livro, sente-se que falta garra ao filme e que ficou pelo caminho. O filme basicamente anda às costas do bom trabalho de Viola Davis e Octavia Spenser e a nomeação para melhor filme nos globos de ouro é quase um exagero...

12/27/2011 2:10 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

gostava de ver um demográfico das bilheteiras americanas. o filme foi um sucesso, mas quem encheu as salas? mulheres, homens, brancos, negros, novos ou velhos?

nem antes nem depois de ver o filme, lhe descubro o appeal...

12/27/2011 7:52 PM  

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