A Árvore da Vida, de Terrence Malick

Uma vez por festa, Terrence Malick desce à civilização e roda uma longa longa-metragem. Fê-lo apenas cinco vezes desde 1969, tendo demorado vinte anos entre o terceiro (Days of Heaven, 1978) e o quarto (The Thin Red Line, 1998). O mais recente A Árvore da Vida é um filme extremamente árido e presunçoso, como acontece sempre que Malick erra a marca (O Novo Mundo, 2005).

A Árvore da Vida é um projecto singular, cheio de estética de poeta e exaltação do universo, com imagens muito preocupadas com o enquadramento e frases enigmáticas de eremita tibetano dispersas por onde calha. Tem a ambição de ser épico e extraordinário, mas acaba esmagado pelo seu próprio peso, a olhar demasiado para o umbigo para simular meditação, a impor leituras óbvias de transcendência espiritual que caem no abismo em vez de levitarem. Após semelhante montanha que pariu um rato, recomenda-se o visionamento de O sentido da vida, dos Monty Python, para desanuviar de tanta solenidade.

A árvore da vida é a metáfora da evolução comum de todos os seres vivos, patente em todos os ramos da ciência e da religião, uma ilustração de como toda a vida na Terra está relacionada, normalmente associando os conceitos de imortalidade e fertilidade. Para o filme, Terrence Malick construiu uma história vaga, fragmentada e não linear, passada nos anos 50, onde uma família com um pai viajante se entretém num quotidiano feito de jardins, bosques e riachos, oportunidade para filmar coisas bonitas e dengosas, como casas pintadas de branco iluminadas em jogos difusos, cortinas a ondularem ao vento e soalhos de madeira a brilharem ao sol.

Brad Pitt é um homem violento com um mau corte de cabelo, Sean Penn quase não fala nem se vê e Jessica Chastain está no seu ano de esplendor: saída de Juilliard, fez teatro com Phillip Seymour Hoffman (Othello) e com Al Pacino (Salomé), tendo sido este quem a recomendou a Malick (em 2011, é possível vê-la também em A Dívida e As Serviçais). Os três passeiam-se por imagens evocativas e belas, incoerentes e desligadas de contexto na manta de retalhos de um guião que, de tão curto, escolheu cobrir-se de efeitos especiais. Douglas Trumbull, reformado especialista em efeitos especiais tradicionais (2001 – Odisseia no Espaço, 1968), voltou a Hollywood trinta anos depois, para brincar com o estojo de química e reproduzir a criação do universo; Chris Parks teve indicação para se entreter novamente com o conceito da árvore da vida (The Fountain, 2006) e há ainda dinossauros para entreter as crianças.

A Árvore da Vida é um filme aborrecido e frustrante. Não há narrativa a seguir (nem interessa juntar as peças fora de ordem), talvez porque, para o cineasta, o trajecto da humanidade se reduza a isto, futilidade, irrelevância e falta de significado. No final, encontra ainda tempo para revelar a sua ideia de Céu, que mais não é do que uma praia onde todas as gerações se banham em conjunto. Em vez de uma experiência metafísica, um embuste.

The Tree of Life 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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