Planeta dos Macacos: A Origem, de Rupert Wyatt

Depois do remake de Planeta dos Macacos (2001), pelas mãos de Tim Burton, ter escamoteado a herança dos inteligentes símio-erectus da filosófica saga da década de setenta, tenta recuperar-se o filão com um reboot baseado na origem da revolta macaca, pela criação do soro do super-primata. Curiosamente, foi assim que Steve Rogers se tornou Capitão América, em filme do mesmo ano.

O filme é uma adaptação livre de Conquista do Planeta dos Macacos (1972), recuperando elementos de diversos filmes da saga. É curioso que a grande originalidade que se atribui ao conceito de Terminator (1984) já se encontrava nessa película macaca, nomeadamente a ideia de ciclo eterno: em Terminator, Kyle vem do futuro para salvar Sarah de um cyborg que quer matá-la antes que ela dê à luz o líder da rebelião e acaba por ser o pai do dito líder; em Conquista do Planeta dos Macacos, Caeser, o primata que daria origem à rebelião macaca, veio do futuro com os pais numa nave espacial. Planeta dos Macacos: A Origem não segue este mecanismo.

Em vez de Terminator, a influência do reboot parece ser o Homem Transparente (2000), menos o pendor sexual típico de Paul Verhoeven. Um soro de laboratório torna mais inteligentes os macacos que servem de cobaias, especialmente um macaquito nascido em cativeiro e que tomou o soro através do útero da progenitora. A pesquisa é cancelada quando um dos chimpanzés se torna violento e o cientista leva o trabalho para casa. Caeser torna-se o seu animal de estimação e o soro é usado no pai com Alzheimer. Anos mais tarde, o macaco dá por si em cativeiro, é maltratado e organiza uma revolta.

Planeta dos Macacos começou nas livrarias, num romance de Pierre Boulle publicado em 1963, despoletou cinco longas-metragens originais a partir de 1968, duas séries de televisão e o remake de 2001. Curiosamente, o twist final do primeiro filme, em que o cosmonauta Charleston Heston descobre que o planeta onde aterrou é, afinal, a Terra, milhares de anos depois da data em que o seu foguetão foi lançado ao espaço, foi uma adenda de Rod Serling, criador da série Quinta Dimensão e argumentista do filme.

Planeta dos Macacos: A Origem é um estudo de cartilha sobre a opressão, suficientemente maniqueísta para que bons e maus sejam distinguíveis a branco e preto. A história é simples e concisa, ainda que não especialmente empenhada. Interligados todos os pontos, obtém-se o desenho de um grupo de macacos em debandada, fugindo pela ponte Golden Gate, até aos bosques da outra margem, onde irão ficar pacificamente até que uma sequela os recupere.

Este filme ficará conhecido por ser o primeiro da saga onde os macacos são exclusivamente digitais, com o actor Andy Serkis a realizar a performance capture e o estúdio Weeta Digital a filmá-lo e a enchê-lo de pêlo. Não é, aliás, a primeira vez que Serkis e Weeta se dedicam a esta tarefa, com Serkis a ter gerado a mímica de King Kong (2005) e de Gollum (personagem da saga Senhor dos Aneis). Os efeitos especiais, contudo, ainda não enganam a cem por cento: em closeups, as peças de roupa do macaco Caeser não aprecem feitas de tecido, mas de uma matéria próxima da borracha.

Se há alguma falha na fórmula mágica é, na cena do ataque ao laboratório, os símios serem capazes de saltar de alturas de vários andares, sem se magoarem, quando o geneticamente alterado Caeser anteriormente partira uma perna por actividade muito menos impactante. O soro apenas funciona ao nível cerebral e não endurece a estrutura óssea. Fica também por explicar porque é que, apesar de tão inteligente, Caeser se refere a si próprio na terceira pessoa, como os índios nos westerns: “Caeser está em casa”, em vez do mais correcto e fácil de articular “Estou em casa”.

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