Quarta-feira, Novembro 09, 2011

Outra Terra, de Mike Cahill


Há mais neste filme do que salta à vista. Dentro e fora dele. E essa acaba por ser igualmente a temática da película, a da existência de um outro planeta azul que, além de nos fazer olhar para os céus, nos obriga a uma avaliação introspectiva, de nós próprios, de como nos relacionamos uns com os outros e o que representa para o futuro o actual estágio evolutivo.
Outra Terra é um filme peculiar. Atmosférico e melancólico, cruza dois personagens através de um evento trágico, que teve repercussões em ambos e precisa de ser encerrado, para que possam prosseguir com as suas vidas. Paralelamente a esta narrativa de sobrevivência, relacionada com o trauma decorrente de um acidente rodoviário com fatalidades, é introduzido um elemento de ficção científica, ao jeito dos contos de Ray Bradbury, sobre um planeta idêntico à Terra, que se torna visível a olho nu, tão nítido como a lua, sobranceiro e intangível, mas cheio de possibilidades.
O processo de readaptação à realidade é trémulo para ambos personagens, mas o novo planeta poderá representar esperança, tão igual ao nosso que os seus habitantes são um espelho de nós, até ao nome e data de nascimento. E, de tão iguais, levantam inúmeras considerações sobre o homem enquanto espécie, do que tem feito ao planeta ao que pensa fazer com o próximo.
Mike Cahill e Brit Marlin, realizador e protagonista, conheceram-se no curso de Economia da Universidade de Georgetown e, desde então, colaboraram em diversas curtas-metragens e no co-assinado documentário Boxers e Bailarinas (2004). Cahill trabalhou também para a National Geographic e editou dois documentários musicais, um sobre Leonard Cohen e outro sobre os Police. Foi responsável pela direcção de fotografia de Outra Terra. Não confundir com outro Mike Cahill, realizador e argumentista de O Rei da Califórnia (2007). Brit Marlin, para além de Outra Terra, co-escreveu, co-produziu e foi protagonista de O Som da Minha Voz (2011). Ambos seleccionados pelo Festival de Sundance deste ano.
Pessoal, intimista e intenso, Outra Terra peca apenas por ser demasiado contemplativo. É visualmente gratificante e consegue sugerir linhas de pensamento frescas mas, de tão ambiental, desenvolve au ralenti. Nesta engrenagem, não chega a ser aborrecido, mas passa lá perto, se considerarmos que o tema do recomeço após a perda de familiares não é, na sétima arte, tão original como isso (Rabbit Hole, 2010, e Traídos Pelo Destino, 2008, serão exemplos recentes). O filme mais marcante do actor William Mapother, co-protagonista (facilmente reconhecido pela sua presença na série televisiva Lost) versava precisamente sobre a dor resultante da perda de entes queridos (Vidas Privadas - In The Bedroom, 2001).
Another Earth 2011

8 Comments:

Blogger Patrícia said...

Boa resenha, Ricardo. As usual.

Concordei com ela na íntegra - ainda que, no meu caso, o filme passou mais longe da fasquia do aborrecido.

Fiquei com algumas questões por esclarecer... Ora dá-me, por favor, o teu parecer:

a) como descobriram a Terra 2? Foi de repente que ela surgiu?

b) A Terra 2 de facto surgiu ou começámos, simplesmente, a conseguir vê-la?

c) os habitantes eram uma réplica dos da Terra 1? Pelo menos a da Rhoda parecia ser, já que, tal como ela, era intrépida ao suficiente para querer vir ao nosso planeta, e também ganhou o concurso...

d) é possível "tocar-se" um serrote da forma como o professor fez?!


Obrigada pela revisão e por me teres dado a conhecer este filme tão evasivo, relaxante, e, acima de tudo... refrescante.

11/11/2011 1:08 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

a)b) não fica claro. a wikipedia diz que "Listening to a story about an approaching planet that looks just like Earth on the radio, she looks out her car window up to the stars and inadvertly slams her car through a stopped car at an intersection".

c) parece que sim. não só a Rhoda, que só vemos no final, mas também a cientista que faz o primeiro contacto verbal com um extraterrestre.

d) "The musical score was composed by Fall on Your Sword, with the exception of the song played in the musical saw scene, composed by Scott Munson and performed by Natalia Paruz. Mike Cahill came upon Paruz, known also as the Saw Lady, while riding the subway in New York. Mesmerized by her playing, he obtained her contact information and arranged for her to coach William Mapother on how to hold and play the saw for the scene in the film."

Sempre às ordens <3

11/11/2011 1:39 AM  
Blogger ArmPauloFer said...

Boa review a este filme, que me parece dividir opiniões pois parecia sugerir outro tipo de filme e é um drama puro com uma vertente sci-fi em pano de fundo.

"...ao de leve lida com o factor dos mundos paralelos (...). É todo ele intrigante, especialmente quando termina... deixando ainda um desfile de alguns muito interessantes sub-textos neste filme (o idoso que trabalha com ela que se auto-penitencia; (um contra-ponto) à forma como a famíla dela é colocada neste filme; e por fim as questões, existenciais e em último caso até paradoxais, sugeridas em aberto para reflexão.)"

http://armpauloferreira.blogspot.com/2011/12/cine-critica-another-earth-2011.html

12/13/2011 1:47 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

tem suficiente sci fi para compensar o cliché "pessoa responsável pela morte de alguém vai tentar compensar o sobrevivente sem se identificar como autor do crime".

é a simbiose entre os dois temas que faz o filme resultar.

12/13/2011 2:12 PM  
Blogger ArmPauloFer said...

De certa forma, refiro-me pela vertente de realmente explorarem o outro mundo mas como o fazem até melhor resultou... ficamos a refletir com os dados que recebemos.

Uma coisa é certa, a Terra paralela estava cada vez mais próxima...

12/13/2011 2:20 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

uma das poucas coisas que achei bem feitas no Melancholia foi o arame que o miúdo arranjou para identificar a distância entre a terra e o outro planeta.

12/13/2011 2:22 PM  
Blogger ArmPauloFer said...

Um artificio necessário para mais tarde servir o argumento... simples mas muito eficaz no Melancholia.
O que vale é que o "Another Earth" nem isso precisa.

12/13/2011 2:26 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

no Another Earth, a outra terra estacionou a uma distância fixa, durante os quatro anos que a história durou não se mexeu. era preciso vir o Principezinho com uma escada e estava feita a ligação.

no Melancolia, não era preciso um final à americana, o outro planeta podia perfeitamente ter seguido viagem. teria dado outro peso ao suicídio do kiefer.

12/13/2011 2:32 PM  

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