Os Olhos de Júlia, de Guillem Morales

Os olhos são o espelho da alma e, por isso, os cegos despertam tanto a curiosidade do cinema de terror. Não é que não tenham alma, mas o seu espelho está baço o suficiente para poder esconder mistérios insondáveis. Olhos de Laura Mars, Abre Los Ojos/ Vanilla Sky, The Eye (original e remake), são títulos em redor do tema. Guillermo del Toro aceitou o pedido do realizador Guillem Morales, que precisava de melhores meios e mais tempo para terminar o filme do que inicialmente previsto, e volta a produzir uma película de terror espanhola, depois de O Orfanato (2007). A actriz principal é novamente Belén Rueda, a mesma que já nos maravilhara

Os Olhos de Júlia é uma história perturbadora, com um vilão misterioso que é capaz de colar-se de tal modo ao cenário que se torna literalmente invisível. Neste ponto, Guillem Morales está irrepreensível, já que a sua câmara capta exclusivamente aquilo que quer que seja visto, ocultando tudo o resto, como um ilusionista, mantendo o público tão cego como a protagonista, mesmo que esteja atento a cada ponto do ecrã. Providencial neste campo revela-se a criatividade do director de fotografia Carlos Faura, escolhendo close-ups para enublar o que está fora do ponto de focagem e iluminação especialmente atmosférica para manter bem perto do público a sensação de perigo. A música de Fernando Velásquez cumpre aqui a sua quota.

O filme começa com um puzzle. Conforme admitamos que Sara estava ou não acompanhada no momento em que se enforcou, isso poderá ser a diferença entre suicídio e homicídio. A sua irmã, Júlia, não quer acreditar e investiga. Só que, como Sara, ela sofre de uma doença degenerativa da visão, motivada pelo stress, e não há dúvida de que os próximos eventos vão puxá-la ao limite. Conseguirá resolver o mistério antes de cegar?

Mas, mem tudo são rosas. A um suspense exemplar até meio da narrativa, a recta final precipita demasiados elementos novos para a panela: o vizinho obsceno, a filha deste que entra por janelas como se fosse o Homem-Aranha e a senhora do lado que se fazia passar por cega, mas afinal apenas tentava enganar o filho. Também não se compreende como é que um transplante de córnea pode falhar tão depressa ou se havia a necessidade de desfecho tão desolador.

Los Ojos de Julia 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo
6 Comments:
Concordo com tudo, sendo que também achei a última terça (ou quarta) parte do filme algo precipitada e comum a tantos outros títulos do género. De qualquer modo, e de resto como referes, gostei muito da realização (o movimento da câmara em algumas cenas em particular são brutais, assim como os momentos de tensão arquitectados com o par protagonista já mais pro final) e da banda sonora.
O meu primeiro comentário por aqui, sendo que já seguia o blogue há algum tempo...:)
abraço
Jorge, bem vindo, desde o olá no FB dos Bloggers :)
já vi este filme há algumas semanas, mas escapava-me a forma de começar a abordagem. Assim que comecei, foi de uma assentada.
a belén rueda é uma mulher maravilhosa, devia haver mais filmes com ela.
por falar em seguires este blog, porque não te tornas seguidor (follower) dele? :)
Já sou seguidor só que anonimamente.
Sim a belén rueda é belíssima, também gostei de a ver no El Orfanato.
abraço
Anonimamente não conta, eu quero é engrossar a minha lista de followers :)
Por falar em Orfanato, a minha crítica está aqui:
http://axasteoque.blogspot.com/2008/05/o-orfanato-de-juan-antonio-bayona.html
e a do Mar Adentro, aqui:
http://axasteoque.blogspot.com/2005/05/mar-adentro-de-alejandro-amenbar.html
Sego anonimamente blogues por uma questão pessoal e de critério, mas vou pensar melhor no caso, fica a promessa. Quanto às críticas irei lê-las, ah e ainda não vi Mar Adentro (aí está uma boa altura para tal...).
como preferires, claro que mais importante do que seguires o blog é lê-lo e espero que tires daí satisfação, já que tento sempre dar o máximo de edge aos meus textos, por mais desinteressante que o filme seja. digo mal de tudo o que é porcaria, e vejo muita, mas também ergo um filme aos ombros se acho que merece a visibilidade.
O Mar Adentro é uma obra-prima, um filme explosivo e emocional, capaz de arrebatar o mais empedernido e levá-lo ás lágrimas. Javier Bardem pode ser considerado o melhor actor do mundo por essa sua representação. Alejandro Amenabar revela-se aqui um cineasta arrebatador, depois de ter gelado o sangue ao público com o arrepiante Tesis (1996). E Amenabar também assina a banda sonora.
Acho que vou juntar o parágrafo anterior à minha crítica do filme, que está muito curta e não faz verdadeiro jus ao filme (é das primeiras do Axasteoquê e nessa altura eu estava com muito pouco tempo e com vontade de encher o blog)
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