Terça-feira, Novembro 22, 2011

Cuidado Com o Que Desejas, de David Dobkin

Não é nada bom augúrio quando uma comédia recorre ao humor escatológico de um bebé a defecar literalmente na boca do pai que lhe limpa a fralda (para dentro da boca, aliás), mas Cuidado Com o Que Desejas tem truques na manga e na bainha das calças. A nudez de Leslie Mann e de Olívia Wilde também deveria ser referenciada como trunfo, não fosse o facto desolador de ser uma combinação de body doubles e seios gerados por computador.

Este é o sexto guião escrito a meias pela dupla Jon Lucas e Scott Moore, responsáveis pelo lamentável As Minhas Adoráveis Ex-Namoradas (2009) e pelo revigorante A Ressaca (2010). Cuidado Com o Que Desejas parece ter partido das suas experiências pessoais, extraídas em brainstorming depois de uma noite de muito álcool, Face Off e Um Dia de Loucos. O conceito é básico: dois indivíduos trocam de corpos e têm uma amostra do que é ser o outro. Claro que, apesar de serem melhores amigos, as suas vidas são o oposto, com Dave a ser advogado, casado e pai de três filhos, e Mitch irresponsável, promíscuo e sem emprego fixo (é actor de anúncios e lorno – soft porno - nas horas vagas).

Contudo, no meio de inúmeras peripécias, umas mais bem sucedidas do que outras, ambos personagens ganham o nosso coração. Seja o homem de família que se torna senhor do seu dia, podendo finalmente ler os livros que tem deixado para trás, relaxar numa explanada ou ter um despreocupado encontro romântico com uma colega de escritório que secretamente deseja, seja o desleixado que se vê assoberbado de tarefas, com dois hiperactivos bebés gémeos e uma bela esposa a quem o quotidiano ofuscou a sensualidade.

Em todo o seu exagero, Cuidado Com o Que Desejas é um auxiliar de reflexão psicológica inestimável para qualquer homem que alguma vez se tenha questionado sobre a relva do vizinho ser mais verde do que a sua. Ao tentar identificar-se com as reacções de Dave e de Mitch ao escapismo de experimentar a outra face da moeda, será mais fácil interpretar se está preparado para dar o passo de solteiro para casado, ou se é casado e inveja tanto o tempo de solteiro que está na hora de se divorciar.

Histórias de troca de corpo destinam-se a ensinar lições de vida e este filme não é excepção. Numa primeira fase, ambos odeiam a experiência, depois aprendem a apreciar os predicados da vida do outro e finalmente compreendem que já tinham a vida que queriam. Não há mal nenhum em não querer os espartilhos do casamento, assim como corre por gosto quem tem bebés chorões porque quis. A ironia vence a previsibilidade, os estereótipos são descascados e os actores Ryan Reynolds e Jason Bateman libertam-se das suas personas típicas, divertindo-se em papéis muito diferentes do habitual.

Um desleixo próprio de um filme que não foi filmado em sequência: quando Dave e Mitch decidem contar à esposa de Dave o que aconteceu, dizem: «Mijámos numa fonte e no dia seguinte trocámos de corpo». Mas quem é que se refere ao próprio dia como dia seguinte? Deviam ter dito simplesmente «Hoje acordámos no corpo um do outro». Aparte este descuido, David Dobkin, realizador de Os Fura-Casamentos (2005), porta-se bem, apesar do filme não ser para todos os gostos, com a sua quota-parte de brejeirice e perversidade a ter de ser encarada no contexto.

The Change-Up 2011

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