Conan O Bárbaro, de Marcus Nispel

Por todo o continente de Hyboria correram rumores de um reboot de Conan O Bárbaro em marcha e muitos foram os que se benzeram e outros os que se degolaram ou cortaram os pulsos. Quando se soube quem iria encarnar o guerreiro Cimério, alguns houve que até arrancaram os olhos. Tudo reacções plenamente justificadas.

Conan O Bárbaro é uma criação de Robert E. Howard datada de 1932, que a Marvel adaptou à banda desenhada em 1970 e ao cinema em 1982, com Arnold Schwarzenegger a empunhar uma espada mais pesada do que a Excalibur. Com quatro títulos de Mr. Universe e sete de Mr. Olympia no currículo, o multi-campeão de culturismo era incomparavelmente a imagem viva do personagem. Pouco importava que os efeitos especiais fossem pindéricos e nenhum dos vilões se lhe comparasse em arcaboiço, a presença magnética do austríaco era um espectáculo em si própria.

Rob Zombie, que tão grotescamente compôs Michael Myers para o remake de Halloween, foi um dos primeiros a fazer campanha pela cadeira de realizador, mas aparentemente nunca chegou a ser considerado pelo estúdio que, depois da recusa de Brett Ratner, se decidiu pelo alemão Marcus Nispel, já que os direitos de autor lhe estavam a custar um milhão de dólares por cada ano de espera. Este é o terceiro reboot de Nispel, que fez um bom trabalho em Massacre no Texas (2003), mas não passou da vulgaridade com Sexta Feira 13 (2009). Pathfinder (2007) já tinha sido uma curva no mau caminho e Conan O Bárbaro cimenta essa direcção.

Jason Momoa foi escolhido para protagonizar, de uma colheita tão fraca que incluía Kellan Lutz e Jared Padalecki. Só Crom sabe as intenções dos produtores, mas Momoa começou por ser um bonitinho salva-vidas na série Marés Vivas Havai e tem sido uma anedota nas suas incursões como duro televisivo, tanto em Stargate: Atlantis como em Game of Thrones. Foi, aliás o mesmo director de casting que o escolheu para Game of Thrones e Conan O Bárbaro. O casting de Momoa consistiu na sua interpretação da Haka, dança tradicional de guerra neozelandesa. Enfim.

O filme começa com a narração promissora de Morgan Freeman, mas evapora as expectativas num campo de batalha com uma desmesura de imagens em câmara lenta. Zach Snyder planeou as cenas de 300 (2007) com rigor, de modo a que cada slo mo respeitasse um objectivo que não seria atingido em tempo real, mas Marcus Nispel não planeia, age por impulso; e impulso não é instinto.

Conan O Bárbaro não acerta em nada. As sobrancelhas aparadas por cabeleireiro não dão a Momoa um ar imponente, mas falso. Rose McGowan esteve para ser Red Sonja quando o marido ia dirigir esse projecto, mas o prémio de consolação é viciado: as unhas postiças fazem-na sentir-se como Freddy Krueger, mas o penteado bem devia ter ficado por baixo de um chapéu de feltro. Stephen Lang é um excelente actor de teatro mas, no cinema, os seus dotes de actor não são perceptíveis desde Última Saída Para Brooklyn, de 1989; Avatar, de 2009, e a actual série de Steven Spielberg Terra Nova, viraram o holofote para ele, mas Conan não passa de outra oportunidade para grunhir. Rachel Nichols aguenta-se bem melhor do que o esperado, mas o seu papel tem pouco peso.

Não chega? Desconheço onde foram contratados os figurantes para a mais miserável aldeia de cimérios de que há memória, mas à entrada de um ginásio é que não foi. E o guião também não lhes granjeou grande inteligência, começando pelo líder da tribo (pai de Conan e interpretado por Ron Perlman, depois de Mickey Rourke ter optado por Os Imortais, de 2011, e as conversas com Dolph Lundgren terem fracassado) que, em vez de esconder no local mais ermo e insuspeito o pedaço de uma máscara (com um poder maléfico extraordinário) que estava à sua guarda, o conservou numa caixa de jóias por baixo do soalho da oficina de ferreiro da própria aldeia. Os jovens da tribo também não eram conhecidos pela sua bravura, ao contrário das fábulas sobre a sua combatividade, porque todos menos Conan fugiram de um ataque de meia dúzia de Mohawks – afinal, Conan é a excepção, não a regra.

Ainda sobre Jason Momoa, porque quem o elegeu irá amargar a decisão para sempre, há que referir que Schwarzenenegger não é único e insubstituível: Dwayne The Rock Johnson foi um sucessor à altura, em O Rei Escorpião (2002). Só que Momoa insere-se mais na liga secundária de Jake Gyllenhall como Príncipe da Pérsia (2010): é atlético, mas não visceral, não tem um físico a que se preste vassalagem, não estamos perante uma verdadeira máquina de guerra. E The Rock também não caiu do céu, Hugh Jackman é irrepreensível como Wolverine (2009) – devia ter menos um metro de altura para ser fiel aos comics, mas isso seria outra história.

Questão pertinente é o destino dado a um orçamento de 70 milhões de dólares. Com a aparência tão parcimoniosa como a de um telefilme, Conan O Bárbaro reconduz-se a um enredo simplório, peripécias inconsistentes e acção aborrecida. A única cena minimamente empenhada é o combate com os homens-areia. De resto, é perfeitamente olvidável. Em 2006, os Piratas das Caraíbas introduziram um Kraken de respeito, um magnífico polvo gigante, mas Conan contou os tostões e encomendou apenas meia dúzia de tentáculos, com a condição de poder devolvê-los se manuseados com cuidado. O 3D de pós-produção é de fábrica e a maquilhagem escureceu Momoa para destacá-lo de todo o pálido elenco.

Sex spoiler alert (porque será que continuaram a ler?): os vilões procuram a única descendente de uma específica casta de sangue puro, que encontram após Conan se ter deitado activamente com ela; normalmente essa busca recai sobre virgens, mas desta vez a eleita não perde propriedades – talvez que o sémen de Conan não seja grande coisa.

Conan The Barbarian 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo
1 Comments:
Opa, muito mau.
"O casting de Momoa consistiu na sua interpretação da Haka, dança tradicional de guerra neozelandesa. Enfim." - ahahahha! :DD
"A única cena minimamente empenhada é o combate com os homens-areia." - sim, por acaso foi a única cena que verdadeiramente me prendeu! O resto não agarra minimamente! :S
"os vilões procuram a única descendente de uma específica casta de sangue puro, que encontram após Conan se ter deitado activamente com ela" - ya! LOOOL
A máscara parecia um face hugger. E aquele homenzito que guiou o Conan até à fortaleza do Zym? Não serviu para nada! Personagem altamente desnecessário :S
Ah, e o gang do Conan disse à Tamara que partiriam de madrugada. Qd ela ia a caminho (e foi assaltada pelos maus novamente) quase parecia meio-dia :D
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