Quinta-feira, Outubro 06, 2011

Um Pedacinho de Céu, de Nicole Kassell

A promessa de Um Pedacinho de Céu só se concretiza quando se sai do cinema, com a sensação de se ter sido libertado do Inferno. A história? Uma mulher com urticária a compromissos descobre que tem cancro e acaba por iniciar uma relação com o seu ginecologista, depois de Deus lhe ter aparecido com o aspecto de Whoopi Goldberg e concedido três desejos, qual génio da lâmpada (Robin Williams estava de folga).

Um Pedacinho de Céu mistura drama, comédia e romance sem se preocupar em ler a receita, tornando clara a diferença entre um cozinheiro e uma sopeira. É que o desequilíbrio pode perfeitamente encontrar-se no excesso de saias: uma realizadora, uma argumentista, uma protagonista e até um Deus em forma de mulher. Os homens são representados por um obstetra que não sabe contar anedotas, um pai que não sabe expressar o seu amor pela filha, um prostituto anão e um melhor amigo gay.

Inchada e delambida não é, decididamente, o melhor look de Kate Hudson. Em 2003, fazia sentido que escrevesse um manual sobre Como Perder Um Homem Em 10 Dias (2003) mas, actualmente, o esforço seria em como mantê-lo tanto tempo. Desde O Tesouro Encalhado (2008) que decaiu de forma e não se prevê recuperação. É degradante que o seu bócio seja o que mais fica na retina, com os olhos achinesados a não passarem de fissuras numa bola.

Isto leva-nos ao problema da química entre os protagonistas, que supostamente se apaixonam, mas são incapazes de dissimular o constrangimento. Gael Garcia Bernal até pode ter caído no goto quando surgiu, adolescente cheio de hormonas a ter sexo pela primeira vez com uma sensual mulher mais velha (E A Tua Mãe Também, 2001; sim, que Amor Cão, de 2000, não fez dele uma estrela), mas está longe de ter uma presença máscula que o distinga da multidão, e isso era exactamente o que este filme precisava, não de um pãozinho sem sal enfezado, tão baixo em estatura que tiveram de contratar um anão (Peter Dinklage) para o moralizar. Bernal está bem para amuleto de porta-chaves, mas não para alma gémea de Kate Hudson, que sempre teve mais queda para musculados bronzeados como Matthew McConnaughey.

Sendo claro que nem ele nem ela acham o outro minimamente atraente ou interessante, a temperatura do filme arrefece a níveis glaciares. Whoopi Goldberg como Deus é um investimento muito mais modesto do que Morgan Freeman em Bruce Allmighty (2003), assim como tudo o resto parece inapto, a começar pelo guião. A personagem de Kate não é agradável à vista nem ao palato, pelo que a descoberta de cancro não ataca o público com a tristeza que se esperaria, e até é possível que haja quem faça figas para que os dias contados dela reduzam a duração da película. De resto, o humor é pedestre, o drama familiar pouco empático (uma relação pouco cordial com os pais) e o romance não podia ser mais forçado. Um mexicano chamar-se Julian Goldstein não tem piada, nem ser judeu a melhora.

A Little Bit of Heaven 2011

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