Fear X, de Nicolas Winding Refn

Fear X baseia-se num dos poucos guiões para cinema escritos pelo novelista Hubert Selby Jr., autor de Última Saída Para Brooklyn e Requiem Para Um Sonho, ambos adaptados ao cinema. O fracasso de bilheteira do filme conduziu a companhia do realizador Nicolas Winding Refn à falência. Cabe analisar o fiasco.

Duas pessoas são assassinadas no parque de estacionamento de um centro comercial e o viúvo de uma delas, obcecado em desvendar o mistério por trás do atentado, assiste a dezenas de horas de gravações de vigilância, cataloga e documenta suspeitos. Tudo indica que a esposa estaria no sítio errado à hora errada, mas nada o demove da sua investigação. Até aqui, tudo bem. Num estilo próximo de David Lynch, Nicolas Winding Refn revela-se exímio na execução dos planos, com um rigor e planeamento que não descura um único detalhe. O mistério adensa de forma lenta, cativando o espectador pelo olhar pesado de John Torturro, pela frieza dos cenários e pelo minimalismo da banda sonora assente em ruídos.

Uma pista nova conduz o viúvo para fora do seu elemento, e aqui é introduzido um novo personagem, ao ponto de o original se perder no papel de parede. Esta cisão é tão drástica que se levanta a hipótese de o projecto ter sido rasgado em dois e cada metade entregue a uma equipa diferente, sem que o primeiro saiba como a história vai acabar ou o segundo como começou. Abandonado neste limbo, o espectador acaba por assistir à solução do mistério, mas de uma forma tão desconcertante que apetece deixar o filme a meio.

O dinamarquês Nicolas Winding Refn estreou-se na terra natal com Pusher (1996) e foi precisamente o fracasso de Fear X que o obrigou a regressar ao tema e a dirigir mais dois capítulos de Pusher, de modo a salvar a sua produtora da bancarrota. Em 2011, venceria o Prémio de Melhor Realizador em Cannes de 2011, com Drive, mas Destino de Sangue (2009) é a sua obra-prima até ao momento.

Spoiler Alert: Porque haveria o assassino de alugar a casa em frente da da vítima, se a morte desta não passou de um acidente, o facto de ter surgido em cena exactamente quando ele executava um agente da DEA corrupto?

Fear X 2003
O Evangelho Segundo Cinéfilo
3 Comments:
Concordo em grande parte com o que escreves, este filme tem tanto de sedutor como de desapontante — e o spoiler alert que referes, mais do que plot hole, pareceu-me um modo gratuito de fazer o argumento avançar.
Contudo, está acima da maioria dos thrillers policiais, e não abala em nada a minha admiração pela carreira de Refn.
Cumps cinéfilos.
P.S. 1: sem dúvida, DESTINO DE SANGUE é fabuloso!
P.S. 2: se me permites a correcção, Refn é dinamarquês e não sueco.
Sam, apenas acho que o argumento se esboroa quando entra o personagem do james remar, todo lacrimejante. penso que seja suposto acreditar que está com remorsos, mas então que raio de clube secreto é esse que utiliza polícias como assassinos e prefere matar agentes corruptos em vez de levá-los à justiça e não se condói com vítimas inocentes (o chefe de james remar parece ser um juiz, pelo gabinete, mas não é claro) e também não se importam com a morte de um dos seus, porque Torturro acaba por matá-lo e o caso é varrido para baixo do tapete.
há muita coisa que fica pela rama, como Torturro matar Remar, que se cinge a uma mancha vermelha no ecrã, glóbulos vermelhos digitais a fluirem dentro do cérebro, pelo que percebi...
não gostei nada da reviravolta e o plot hole mencionado é vergonhoso. a coincidência da corporação secreta que arrenda a casa da frente, o assassino ter lá deixado negativos de fotos, haver um temporizador para a luz da casa quando não está lá ninguém a habitar, são facilitismos que fazem o filme perder qualidade a pique.
destino de sangue é fabuloso.
agradeço a correcção, vou alterar.
a seguir vou criticar o drive, que estive a guardar para depois de ver o fear x, só para ter uma ideia de percurso de Refn, depois de já ter visto bronson e Ddestino de sangue (ambos criticados no blog).
um abraço
Sem dúvida, mas sempre achei que o argumento é o que menos importa nos filmes de Refn, o style over substance domina e de que maneira.
Curiosamente, também vi este filme recentemente, fica a opinião: http://sozekeyser.blogspot.com/2011/10/criticas-da-semana_23.html#fearx
Cumps cinéfilos.
P.S.: espero, com muita curiosidade, a tua opinião sobre o Drive :)
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