Segunda-feira, Outubro 24, 2011

Drive, de Nicolas Winding Refn

O cinema de Nicolas Winding Refn tem o condão de ser uma experiência, se não única, pelo menos invulgar. Desde a sua fulminante estreia no país de origem, com Pusher (1996), o dinamarquês, filho de um realizador e de uma directora de fotografia, tem avançado por diversos géneros com a destreza de um sniper e o portento de um elefante.

Depois de ter experimentado o drama criminal, a fantasia medieval, o thriller e o musical, Refn aterra finalmente na sua referência mais americana de sempre: a velocidade a quatro rodas. Baseado no romance homónimo de James Sallis, publicado em 2005, Drive já esteve para ser rodado por Neil Marshall e estrelado por Hugh Jackman, mas em 2010 o projecto foi oferecido ao actor Ryan Gosling, com a discricionariedade de este escolher o realizador.

A estética de film noir série B de Drive é reminiscente dos icónicos William Friedkin e Michael Mann, com súbitas explosões de violência que não desmereceriam Sam Peckimpah. Os ambientes sonoros via sintetizador de feira ajudam a manter a ilusão, que ainda é carregada pela arquitectura e guarda-roupa. Só o uso de telemóveis aproxima a trama da actualidade. A direcção de fotografia, inspirada nos policiais de Jean Pierre Melville, da Nouvelle Vague, insiste no efeito retro.

Nicolas Winding Refn é incapaz de deixar o público indiferente, mas nem tudo são rosas. Não havia muito a fazer em relação a Ryan Gosling, que já estava contratado, mas Carey Mulligan é um mal cozido pãozinho sem sal, de eterna expressão sofredora, e a química entre ambos é nula. Os débeis sorrisos de canto de boca de Gosling nunca fazem ligação ao seu olhar de estupor quase autista, que o acompanha em todos os filmes onde participa, e em vez de um herói determinado, temos um vazio que o desautoriza. Os actores secundários são competentes, mas o guião não existe para fazê-los brilhar. É no protagonismo que estão os erros.

Sem química que alimente a história de amor, resta a trama criminosa, que pode descrever-se por uma linha comatosa com alguns picos abruptos. Infelizmente, aqui também não há nada de novo. Um rapaz musculado, que conduz carros para cinema e assaltos, interessa-se pela vizinha, mas o marido é libertado da prisão e o idílio é interrompido. O marido quer endireitar-se, mas uma dívida da prisão obriga-o a cometer um assalto e o herói oferece-se para conduzir o carro de fuga. É aqui que o preto deixa de estar no branco e só o sangue poderá saldar as contas. Previsivelmente.

Em suma, a força de Drive reside no rigor muito particular da realização, mas a estética esfuma-se no artifício plástico. Os espasmos de agressividade são chocantes, especialmente porque desequilibram a constância do tédio, mas não encontram uma faísca motivadora para os comportamentos do herói. A inexpressividade de Gosling e os sapatos apertados de Mulligan não aguentam a prova e só as cenas atrás do volante parecem vibrar. A fuga de abertura prometia outro nível de excelência, quase mais emocionante nas pausas do que nas acelerações, cuja energia apenas se repete na perseguição após novo assalto, a reter longamente a imagem frontal do herói a segurar o veículo, enquanto outro se despista por trás dele, visível em câmara lenta através do vidro traseiro.

Drive 2011

6 Comments:

Blogger Sam said...

Embora não considere que faça um filme na sua totalidade, sou daqueles cinéfilos que dão 90% de importância à estética utilizada. E que grande trabalho formal possui DRIVE...

Considero que o protagonista é um anti-herói por excelência e, na linha deste género de personagem, muitas das suas acções e motivações têm tanto de repreensível como de inexplicável.

E das interpretações, só destaco mesmo Albert Brooks (já se fala em nomeação para Óscar).

Gostei bastante, ao ponto de, por enquanto, o eleger como um dos melhores do ano. Tu nem por isso, portanto temos mais um "desaguisado" a resolver...: http://24.media.tumblr.com/tumblr_ltl9pe7dgz1qh8mzoo1_500.jpg

:)

Cumps cinéfilos.

10/25/2011 12:25 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Sam, se a estética de um filme fosse 90% da sua qualidade, todos os filmes de Tony Scott seriam obras primas...

A estética é muito importante, sim, mas apenas se aliada a uma história com nexo (desde que faça sentido em si, ou seja, uma história pode ser surreal ou onírica e ainda assim fazer sentido, na sua lógica interna).

Nunca gostei do Ryan Gosling nem entendo como possa ser considerado bom actor. Em Half Nelson ainda vá, porque fazia de professor ganzado, só que parece ganzado em todos os filmes onde entra. Também lhe achei alguma piada no recente Crazy Stupid Love, mas é porque a personagem ganha com o seu aspecto.

Detesto a Carey Mulligan, é uma carinha sofredora em todos os filmes em que entra e não faz nada fora desse registo. eu não senti nem um flash de paixão entre Gosling e ela.

Albert Brooks não está mal, mas também não está memorável. É igualzinho a falar de mortes como outrora a lamentar ser tão mau na cama com as suas ex-mulheres, mas comédias que fez ao longo dos anos 90 - e onde sempre foi um imprestável. o único mérito qque lhe reconheço foi ter desenvolvido os Simpsons para a TV, no Tracy Ullman Show.

Não posso dizer que não gostei do Drive, porque até gostei, mas ficou bastante aquém das minhas expectativas, precisamente por ser um filme de Refn. Tenho de arranjar os Pushers, que ainda não vi nenhum...

10/25/2011 10:19 AM  
Blogger Sam said...

Quando falei em estética, claro que estava a referir-me a boa e a má estética (e há filmes do Tony Scott que admiro somente pelo formalismo que têm...).

Sim, a Carey Mulligan também está a tornar-se num ódio de estimação.

E a trilogia Pusher é fabulosa, sobretudo o terceiro filme.

Cumps cinéfilos.

10/25/2011 4:41 PM  
Blogger Sam said...

Esta crítica mereceu destaque na rubrica «A “Polémica” do Mês» do Keyzer Soze’s Place, disponível aqui: http://sozekeyser.blogspot.com/2011/12/polemica-do-mes-7.html

Cumps cinéfilos!

12/28/2011 3:22 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Sam, obrigado pela referência no teu blog e pelo heads up em relação a tê-lo feito :)

eu sou muito desatento ao que se escreve na blogosfera ...

12/28/2011 6:08 PM  
Blogger Sam said...

No problem, a "Polémica" só foi publicada hoje :)

12/28/2011 6:10 PM  

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