Quinta-feira, Setembro 22, 2011

Thor, de Kenneth Branagh

Fruto da mitologia escandinava, Thor tem sido um deus popular, da ocupação romana ao advento dos vikings, que ostentavam o símbolo do martelo Mjolnir como desafio à cristianização. Em 1962, Stan Lee (com Larry Leiber e Jack Kirby) adicionou-o à galeria de super-heróis da Marvel. No limbo das adaptações cinematográficas desde 1997, o Deus do Trovão passou pelas mãos de Sam Raimi (Homem-aranha, 2001), David S. Goyer (Blade 3, 2004) e de Matthew Vaughn (Kick Ass, 2010, e X Men Primeira Classe, 2011), antes de ser arrebatado pelo mais shakespeareano dos realizadores, Kenneth Branagh.

Não sendo o tipo de director que associaríamos a um filme heróico, Branagh tem no currículo uma boa dose de tragédias e a mistura, se não explosiva, é invulgar. Em vez de concentrar-se na acção pura e dura, Thor desmonta a sua história com vagar. Um príncipe presunçoso é exilado no dia da sua coroação, alvo da traição do irmão e da severidade do pai. Uma vez na Terra, Thor tem de aprender o valor da humildade e abnegação, antes de provar-se merecedor de erguer novamente o martelo de estimação (referência clara a Excalibur, a espada do Rei Artur, que a magia de Merlin solidificara na rocha com o mesmo propósito). Há muito de Henrique V em Thor e de Rei Lear em Loki.

Há diferenças entre os comics e a adaptação cinematográfica, como não podia deixar de ser, nomeadamente na extinção do seu alter ego. Assim como o cientista magrinho Bruce Banner se transformava no gigante Hulk, também o médico coxo Donald Blake batia com a sua bengala e se transformava em Thor. No filme, Blake é mera referência a um ex-namorado de Jane Foster, que foi promovida de enfermeira a cientista. Balder o Bravo (o Lancelot de Thor) é outra ausência notada. Mas há Odin, Loki, Laufey, Heimdal, o Arqueiro Verde e os Warriors Three.

O comportamento dos agentes da SHIELDS também deixa muito a desejar, uma espécie de CIA que não respeita propriedade privada nem direitos humanos. Para além de bullies, ainda se sente uma estranha ameaça de tortura a um Thor algemado, na frase “De uma forma ou de outra, obtemos sempre o que queremos”. O Destruidor, arauto de Loki, podia ser menos parecido com o robô GORT, de O Dia Em Que A Terra Parou (2008).

No fundo, Thor funciona como entretenimento vistoso, mas não fica na memória. A luta contra os gigantes do Gelo é caracterizada pela supremacia de Thor, ao ponto de nos perguntarmos que tipo de perigo podem constituir estes contra Asgard, Odin prefere dormir a governar e na Terra também ninguém faz grande coisa. Sobra, talvez, Tom Hiddleston, que melhor não teria sido possível colar a Loki. Por aqui chegamos ao restante elenco: Chris Hemsworth tem o cabedal, Anthony Hopkins a banalização da experiência, Stellan Skarsgard o peso, Kat Dennings a irreverência. Natalie Portman, na sua segunda incursão nos comics (V de Vingança, 2005) esteve tão mais concentrada em O Cisne Negro (2010) que também se desleixou em Sexo Sem Compromisso (2011) e em Real Desatino (2011).

Thor 2011

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