Segunda-feira, Setembro 12, 2011

As Múmias do Faraó: As Aventuras de Adèle Blanc-Sec, de Luc Besson

Espécie de Indiana Jones do sexo feminino, Adèle Blanc-Sec apresenta-se voluntariosa, inabalável, indomável e destemida. Como peculiaridades, rouba sarcófagos, comunica com cavalos e monta pterodáctilos. Mais uma vez, uma adaptação cinematográfica obriga à interrogação: o que é que fizeram à verdadeira Adèle Blanc-Sec?

A escritora de ficção e jornalista investigadora criada pelo francês Jacques Tardis em 1976 era determinada, mas também introspectiva, desconfiada, fechada em si própria. Tardis moldou-a à imagem de Àrsene Lupin, um ladrão ficcional do mesmo período de acção (1910s), e como uma antítese de Barbarella, uma das poucas heroínas de serviço no universo comics dos anos 60 e 70, que já existia antes de Jane Fonda lhe dar carne e osso (1968). Ao contrário de Barbarella, Adèle era sarcástica, recatada e não especialmente bonita (onde estão as sardas e as feições que Minnie Driver teria recriado na perfeição?). Os mistérios em que se via envolvida eram sombrios, misturavam ocultismo com crime e eventos reais, mas Luc Besson, outrora um próspero cineasta, tem passado a última década demasiado distraído com animações infantis por computador (trilogia Arthur) e transformou-a numa pedante e excêntrica espécie de Evy, encarnada por Rachel Weisz na trilogia A Múmia (1999), mas até Evy tinha características mais redentoras do que esta versão anedótica de Adèle. Se era para desviar-se tanto do figurino, porque não dar-lhe outro nome?

Enfim, Luc Besson reimaginou Adèle Blanc-Sec como a sua Fénix, regressando ao cinema em imagem real doze anos depois de ter lançado Joana D’Arc às chamas (A Mensageira, 1999). Pegou em dois dos livros de Adèle (o primeiro e o quarto) e misturou-os num enredo da sua autoria, precisamente a parte que mais aproxima a personagem de Indiana Jones e Evy Carnahan. Incluiu igualmente uma narração inútil e que pisca o olho aos sucessos da dupla Jean-Pierre Jeunet/Audrey Tautau, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (até o título soa similar a As Fantásticas Aventuras de Adèle Blanc Sec) e Um Longo Domingo de Noivado.

A adaptação surge depois das de Blueberry, Immortel, Lucky Luke, e antes da de Tintin, todos personagens de BD franco-belga do século XX de que a sétima arte se apropriou no novo milénio. Ignorando agora o facto de Adèle praticamente nada ter a ver com a sua homónima original, a versão de Besson é a de uma Maria-rapaz impaciente e de nariz empinado, a quem tudo corre bem nem que tenha de fazer beicinho, que nunca se apercebe das dificuldades porque estas se corrigem por si, que resolve mistérios mirabolantes pelo mundo inteiro e não aceita um não por resposta.

Só como história para crianças se aceita tanta incoerência (Adèle parece ser uma sumidade em hieróglifos, mas traz a múmia errada; um animal pré-histórico é encontrado na sala de um cientista e este é imediatamente encarcerado e condenado à morte, mas a mulher que tenta evadi-lo é repetidamente expulsa da prisão, sem sequer ser apresentada a tribunal; o pterodáctilo alimenta-se de vítimas humanas em redor de Paris, mas não morde Adèle; o pterodáctilo morre pela sua ligação telepática ao professor, mas o mesmo não acontece às múmias ressuscitadas pelo mesmo método; a cura egípcia é um pró-forma), assistindo-se mais pela expectativa que propriamente pelo espectáculo.

Besson filma de forma despachada e a actriz Louise Bourgoin faz funcionar a personagem em toda a sua excentricidade. Lamenta-se a quebra de fidelidade para com a seriedade e o suspense do original, tanto em termos de atmosfera como das características da personagem, por apostar na piada fácil e num público infanto-juvenil, e na forma como descarta praticamente todos os fenómenos que aborda: até a missão de salvar a vida da irmã termina com um encolher de ombros, está salva, been there, done that, vamos à missão seguinte…

Les aventures extraordinaires d'Adèle Blanc-Sec 2010

2 Comments:

Blogger ArmPauloFer said...

Como desconhecia a versão banda-desenhada, o filme foi para mim uma delicia. Mais foi ainda a actriz Louise Bourgoin... ui...
É um filme rocambulesco à moda de Luc Besson, tem o charme da lingua... e muita aventura com humor. Foi fixe!

3/12/2012 2:58 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

A Louise Bourgoin é deliciosa, concordo. Infelizmente, é completamente diferente da Adele das BDs que eu amava em miúdo e por isso chateou-me o que o Besson fez à personagem. Não lhe custava nada dizer que era um filme original, com uma personagem inventada para o filme.

Dito isto, o Besson faz uma grande aventura, mas os tempos de Artur e os Minimis reduziram o do antigo incendiário de Nikita, Leon e 5º Elemento a um pasteleiro. Toda a parte das múmias está muito infantil e as BDs eram adulto-juvenis e ricas em factos perigosos, em vez de piadéticos (as investidas na prisão para salvar o velho cientista, por exemplo). Indiana Jones de saias, é certo, mas isso não impede que se considere O Reino das Caveiras de Cristal uma valente porcaria, sem nenhuma da magia dos anos 80.

3/12/2012 10:35 PM  

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