A Tempestade, de Julie Taymor

Oh, a tragédia de saber que a leitura é sublime e a tela enfadonha, que os actores agridem com o texto os ouvidos da audiência, que o ritmo da pontuação não encontra rival na entrega da imagem, que os cenários são belos mas a câmara ausente, que os efeitos especiais são anedóticos e não servem qualquer propósito.

Uma das piadas recorrentes das palestras do ilustre Sir Ken Robinson é sobre um William Shakespeare com sete anos de idade, em cujo remate o pai lhe dá as boas noites e recomenda, à laia de repreensão, que pare de falar daquela maneira. O estilo poético do mais famoso dramaturgo britânico podia beber das convenções da época, mas a verdade é que se destacou por transformá-las numa característica própria, com floreados que perduram até hoje, mas não deixam de ser de confusos e exigentes.

Pensa-se que A Tempestade tenha sido a sua última peça escrita a solo, por volta de 1610, e publicada em 1623. Trata-se de um romance tragicómico, mais neoclássico e canónico em forma do que os seus textos mais célebres, ao qual a popularidade não chegou antes do século XIX, com as subidas ao palco anteriores a adaptarem a prosa ao gosto mais consumista. No século XX, A Tempestade foi pintada, cantada, tocada e até transformada em Ópera por 46 compositores independentes.

A quarta e última vez que o celulóide brindou A Tempestade foi em 1991, com Os Livros de Próspero. Peter Greenaway, experimentalista, criou-o mais como uma instalação artística do que uma narrativa, integrando mimo, dança, ópera, animação e inovadoras (à época) técnicas fotográficas, com manipulação digital e inserção de mini ecrãs. E muita nudez.

A nova Tempestade (2010) foi escrita e realizada por Julie Taymor, cuja inovação foi colocar uma actriz no papel do protagonista, mas sem aderir à opção cénica da nudez, apesar de Dame Helen Mirren, que vestiu Prospera, ter escandalizado, no mesmo ano, a nata eclética, com a sessão fotográfica de Juergen Teller para a New York Magazine, em topless aos 65 anos.

Julie Taymor não é alheia ao celulóide, tendo já adaptado Shakespeare com Titus (1999) e biografado Frida Khalo em Frida (2002), mas é conhecida especialmente por ter erguido a produção teatral/musical do Rei Leão (1997) e a de Spiderman Turn Off The Dark (2010), que abandonou a poucos meses da estreia, por divergências artísticas.

A Tempestade foi rodado em redor das ilhas vulcânicas do Havai e aí reside o seu único elogio. A direcção de fotografia de Stuart Dryburgh (O Piano, Once Were Warriors, O Recruta) é grandiosa, com as paisagens bem mais poderosas do que os actores. O intricado texto de Shakespeare é debitado em toda a sua complexidade, como pesadas rodas dentadas de uma máquina já de si não especialmente empolgante, e parece por vezes que a preocupação dos actores está em não se enganarem do que em transmitirem sentimento.

Se Chris Cooper e David Strathairn mantêm um véu de seriedade, Djimon Hounsou é surpreendentemente desanimador e Russell Brand previsivelmente paupérrimo. Helen Mirren domina a película, mas convém não esquecer Ben Wishaw, que tão mau Perfume (2001) fez, mas que tão excelente Ariel encanta. O casalinho formado por Reeve Carney e Felicity Jones não poderia ter menos sal (curiosamente, ele é o Peter Parker do musical Spiderman).

The Tempest 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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