Nunca Me Deixes, de Mark Romanek

Deprimente de alma, surreal no absurdo, comatoso em ritmo e indigente nas representações, Nunca Me Deixes condensa as ideias mais patéticas com que possa aspirar-se ao vazio dramático, dando à manivela da máquina de projecção com tanta lentidão que se poderá crer que parou.

Baseado no romance de Kazuo Ishiguro (autor de Os Despojos do Dia e A Canção Mais Triste do Mundo), Nunca Me Deixes foi adaptado por Alex Garland, prova mais do que absoluta de que o sucesso dos filmes de Danny Boyle (A Praia, 28 Dias Depois e Missão Solar) se deve exclusivamente ao cineasta.

Mark Romanek é um realizador de telediscos que se aventurou no cinema com o aborrecido Câmara indiscreta (2002), esteve para dirigir O Génio do Mal e O Lobisomem e também devia ter sido impedido de assinar Nunca Me Deixes. Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley protagonizam, com um empenho que se caracteriza por mínimos históricos.

O enredo conta-se em duas penadas, e aquilo que ficar fora deste sumário também ficou de parte na longa-metragem. Nos anos 70, havia orfanatos para clones, cuja função era serem dadores de órgãos na fase adulta. São crianças crédulas que nunca se desenvolverão para além da sensibilidade e raciocínio infantil, acanhadas e medrosas, que sobrevivem para que os seus apêndices possam ser colhidos para aumentar a vida de humanos anónimos. O filme acompanha três dessas crianças, numa espécie de triângulo amoroso que nunca chega a definir-se para além de um desejo frustrado até, como diria Agatha Christie, só sobrar um deles (a esperança de vida de clones-dadores não é muito grande), o qual tem também os dias contados.

Em vez de comovente, o filme é apático. Nenhum dos personagens é mais do que uma marioneta mal oleada, ninguém questiona ou explica a realidade inerente à existência de aviários humanos enquanto instituições socialmente aceites nem a condição subalterna dos clones, ficando-se pelo registo de imagens soltas e vagas sobre existências próximas do nada e cheias de dúvidas existenciais. Projecto incoerente e superficial, assente num subtexto que depende exclusivamente da capacidade de invenção, mais do que interpretação, do público.

Never Let Me Go 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
2 Comments:
"Comatoso" será, provavelmente, dos melhores adjectivos que já li para descrever este filme...
Também fiquei bastante decepcionado, embora considere possuir um interessante trabalho de fotografia e Andrew Garfield tem a interpretação mais competente do conjunto.
Cumps cinéfilos.
ai, ainda estou para ver uma interpretação do andrew que me diga que ele será melhor peter parker do que tobey maguire...
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