Lua, de Duncan Jones

Lua é um singular e surpreendente drama de ficção científica, um mistério e uma questão existencial: o que é ser humano? Conceptual e atmosférico, o filme respira intensa carga emocional, conjugando uma realização consciente e contida, espartanos cenários de uma frieza retro-futurista e um actor em estado de graça.

Sozinho numa base lunar há três anos e prestes a terminar o seu contrato, Sam sofre um acidente num posto distante, quando inspeccionava um dos extractores de minério. Ao despertar na enfermaria, com alguma dificuldade em recordar-se dos eventos que ali o trouxeram, desconfia das explicações do computador I.A. de serviço e inicia um processo de descoberta a contra-relógio, já que a equipa de auxílio que vem a caminho pode não gostar do que encontrar.

Estudo sobre o indivíduo em situação de isolamento de longa duração, a sua adaptação à realidade da duplicação e possível paranóia de nenhum deles ser verdadeiro. Estreia magnética de Duncan Jones, (nome artístico de Zowie Bowie, filho de David), que trabalhou lenta e cuidadosamente o guião com Nathan Parker e lhe imprimiu um ritmo etéreo, permitindo a Sam Rockwell dar uma lição de representação, o que este não fazia com tanta suavidade desde o seu filme de estreia, Confissões de Uma Mente Perigosa (2002).

Com um orçamento de apenas cinco milhões de dólares, a escolha óbvia de recorrer a efeitos especiais tradicionais provou-se eficiente, com cenários em maqueta e veículos em miniatura, reminiscentes dos antigos clássicos 2001 – Odisseia no Espaço ou a série Espaço 1999. O computador central de serviço é também uma homenagem ao opus de Kubrik, com a voz de a recordar a do HAL 9000, que impassivelmente eliminava toda a tripulação de que deveria cuidar. A voz de veludo de Kevin Spacey aquece uma lâmpada azul em vez da vermelha de HAL, e as diferenças não se ficam por aqui.

Desarmante na simplicidade e admirável no realismo, Lua é tudo o que poderia ser. Os efeitos visuais de Gavin Rothery, a fotografia de Gary Shaw, a banda sonora de Clint Mansell e a montagem de Nicolas Gaster acrescentam pontos ao já mencionado. A desestabilizar a imagem de quase perfeição está o facto de o guião ser apresentado como original, quando a maior parte dos seus pontos já terem sido abordados no conto Rogue Moon, do lituano Algis Budrys (1960).

Moon 2009
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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