Domingo, Agosto 14, 2011

Igualdade de Sexos, de Nigel Cole

Os dinossauros podem estar extintos há 65 milhões de anos, mas o direito à igualdade de sexos na remuneração por trabalho efectuado não tem garantia legal há mais de 40. Para comemorar esse marco, Igualdade de Sexos recria a primeira greve feminina, ocorrida numa linha de montagem da Ford, no subúrbio londrino de Dagenham, em 1968.

As 187 trabalhadoras do departamento de estofagem decidiram revoltar-se contra as respectivas condições salariais, porque, indevidamente tabeladas por trabalho não especializado, recebiam muito menos do que aquilo que lhes era devido. À resistência da empresa em reconhecer esta reivindicação, redobraram a luta e exigiram equiparação ao salário masculino.

«O progresso pode ser medido pela posição social da mulher». A frase é de Karl Marx e continua tão válida como ao longo do século XX. Ser tratado com respeito não é um privilégio. A igualdade de direitos é um princípio universal de justiça, contra a discriminação sexual, que o filme trata com sobriedade. Uma vez que a vida não se esgota no braço de ferro com os patrões, a sensibilidade de William Ivory, argumentista, foi importante para gerir a tensão entre as grevistas e os operários, maridos e outros, num retrato suficientemente romântico para não insistir nas dificuldades financeiras derivadas da falta de vencimento durante o período de greve, especialmente no caso daqueles em que todo o agregado familiar estava dependente do mesmo empregador. Foi também suficientemente ousado para pôr o dedo nas tácticas sujas da Ford, que não se coibiu de pressionar os sindicatos e o próprio Governo britânico, no sentido de nenhuma alteração ser negociada.

Hoje e sempre, há apenas duas posições no que concerne ao capitalismo: os que trabalham e os que lhes pagam o salário. Os primeiros querem um vencimento justo, porque a vida não é só bulir, enquanto os segundos querem os lucros para si e partilhar o mínimo possível. Para se fazerem ouvir, os primeiros recorrem à greve, os segundos à ameaça, à violência, à chantagem e a outros métodos igualmente odiosos, porque é um impasse entre quem se pode dar ao luxo de desperdiçar tempo contra quem tem de sacrificar contas por pagar e bocas por alimentar. É a eterna luta de David contra Golias, mas Golias deixou de ser apenas grotesco fisicamente, para tornar-se um monstro com tentáculos que se arrastam por todo o tecido social, pressionado o político e determinando o económico.

Sally Hawkins já não é uma estrela em ascensão, a franzina e desengonçada actriz, formada pela Royal Academy of Dramatic Art, é um caso sério de excelência, a quem nem sempre têm sido dadas as oportunidades ou os projectos mais adequados (Vista pela Última Vez, O Sonho de Cassandra e Flor do Deserto), mas cuja determinação e talento compensam a aventura (Fingersmith, Happy Go Lucky). Também podem ser vistos Bob Hoskins, Geraldine james, Miranda Richardson e a sempre admirável Rosamund Pike.

Made in Dagenham 2010

7 Comments:

Blogger notjustanotherblog said...

quanto mais anos passam mais subterfugiadas são as clivagens entre assalariados e empregadores, que vão existir sempre, e é com grande tristeza que concluo que é por vezes nas maiores empresas (diga-se multinacionais) que as diferenças quer de direitos quer de salários entre géneros são as mais gritantes! haja paciência, mas não sem persistência e contestação, caso contrário daqui a 30 anos estaremos novamente a trabalhar a um ritmo acelerado de trabalho em nome da produtividade e consumismo : - /

8/14/2011 11:38 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

teria de haver uma grande revolução intelectual para que assim não fosse. ou então, uma revolta militar imediata, que pusesse o PSD e o FMI na rua e desse início a um período comunista na nossa sociedade. penso nisto desde que o governo congelou as promoções e os salários nas forças armadas, incluindo GNR, a semana passada, e estes manifestaram o seu desagrado. o que precisávamos era de um novo 25 de abril.

8/15/2011 8:48 AM  
Blogger notjustanotherblog said...

já cheguei a pensar o mesmo : )

8/15/2011 4:07 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

mas temos um país de merda, que não sabe revoltar-se. as condições económicas têm vindo a degradar-se durante todo o novo milénio, mas os portugueses parecem avestruzes e os políticos só vão para o governo e assembleia construirem pé de meia.

8/15/2011 4:13 PM  
Blogger notjustanotherblog said...

o nosso problema é o problema dos países pequenos que pensam que são grandes, e assumem pretensões e estilos de vida que não são comportáveis com os seus níveis de rendimentos( e verifico isto em todas as classes económicas, familiares, empresariais e governamentais).........no entanto há que manter a pose, isso Portugal faz muitíssimo bem infelizmente, não se sabe bem a que custo (ou melhor, vai-se sabendo no final de cada conjuntura política ou no limite nas transições entre elas), mas lá fazer debates, comentar e racionalizar sempre todas as opções possíveis e condenar ao fracasso qualquer tentativa de reformar o país..... isso é que parece vender , nem os críticos políticos têm o mesmo nível de qualidade , qualquer um hoje em dia pode ser comentador político.......basta expressar uma opinião, esbracejar um bocado e falar mais alto que todos,desde que venda em televisão, segue adiante!

Se o Lula da Silva tivesse um clone, Portugal deveria investir na compra de um deles, quem sabe Portugal não sairia da merda em que se meteu : P (independentemente dos acordos que ele terá supostamente feito com alguns países para tirar o país de um nível terceiro-mundista para um país competitivo profissionalmente), pois actualmente abre portas a uma eventual nova vaga de emigração em busca de melhores condições profissionais.

8/15/2011 6:21 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

como se pode ver pelo nível de endividamento dos EUA, não são só os países pequenos que vivem acima das suas possibilidades, são todos. aqueles, como cuba, que vivem ao nível das suas possibilidades, são apontados como desastres.

o mal é da natureza consumista, que faz comprar a crédito, e de serem os governantes a decidirem os seus próprios salários. com isto, temos as pessoas endividadas e os políticos a quererem governar só para se governarem enquanto puderem. e pessoas endividadas são mais facilmente governáveis...

8/15/2011 6:39 PM  
Blogger notjustanotherblog said...

nem todos, ainda há países que se conseguem governar com objectivos:

tens o caso da Noruega e da Austrália, onde pelo que pesquisei há uns meses atrás podes até ter um grande corte na fatia do teu salário para o estado, mas o que é certo é que vês isso reflectido em serviços de saúde e educação.

quando é que será que copiamos estes bons exemplos?

8/15/2011 10:07 PM  

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