Sábado, Agosto 13, 2011

Ano Bissexto, de Michael Rowe

Mosca na parede de um apartamento da Cidade do México, o espectador de Ano Bissexto será confrontado, de forma voyeurista e mesmerizante, ao mês de Fevereiro em casa de Laura, uma mulher solitária, que completa o seu dia com telefonemas a antigas amizades, que não vê desde que deixou a cidade natal de Oaxaca, às quais inventa uma vida social recheada, e as noites fora, das quais regressa com homens anónimos para sexo sem continuidade. Arturo vai ser o primeiro amante com nome, num relacionamento sexualmente violento, doloroso e humilhante, que ela aceita sem repudiar.

Retrato realista, cru e sincero do vazio nas grandes cidades, exclusivamente filmado no interior do apartamento de decoração pobre de Laura, a câmara segue-lhe os passos durante um mês, em cujo calendário ela assinalou, a vermelho, o dia 29. Apesar do seu exterior impassível, ela é uma mulher torturada e reprimida, que encontra na subjugação e obsessão do jogo sexual um escape para a sua existência sonâmbula. Marcará Arturo, o amante violento, uma diferença boa, má ou trágica na sua vida? E qual será o trauma associado ao único dia que apenas se repete de quatro em quatro anos? Terá a sua perda de virgindade aos 12 anos alguma coisa a ver com o pai, falecido num ano bissexto, que ela diz ao irmão que, na idade dele, também achava ser boa pessoa? É impossível saber, mas o sol no calendário de Março dá boas perspectivas.

Perturbador, intenso e minimalista, Ano Bissexto aguenta-se pelo seu fôlego próprio, lento mas sempre interessante, pela entrega de corpo e alma de Mónica del Cármen, que se expõe com uma naturalidade absolutamente desarmante, e pela contenção da câmara do australiano Michael Rowe, capaz de focar a nudez eléctrica da personagem sem nunca revelar mais da sua personalidade do que o estritamente indispensável. Um tour de force para ambos, surpreendentemente magnéticos neste estudo à raiz humana.

Año Bisiesto 2010

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