Segunda-feira, Agosto 15, 2011

Abutres, de Pablo Trapero

Romance em metal retorcido, Abutres é uma história que se alimenta de carcaças, construindo um pequeno romance em redor de um braço do crime organizado ao qual o público não está habituado, que assenta em esquemas de fraude ligadas aos sinistros automóveis, através dos quais advogados pouco escrupulosos se tornam procuradores dos acidentados, com promessas de chorudas compensações, que acabam por guardar para si próprios. Este negócio, aparentemente lucrativo na Argentina, exige dos envolvidos propensão para a burla e para o descaramento, que começam a faltar a Sosa, um casuístico com ganas de deixar a máfia, mas que tenta contornar as consequências desse passo antes de tomá-lo. Claro que conhece Luján, a médica do INEM, por quem se apaixona, e já se sabe que o amor é uma força maior do que o medo.

Com argumento e realização de Pablo Trapero, Abutres é um filme amador, mas pelo menos é sincero e os seus personagens são credíveis, ainda que as suas acções, conforme o enredo progride, deixem de sê-lo. O final, então, atola-se no conceito de twist fácil, que Hitchcok banalizou já nos anos 60 e que, para ser satisfatório, exigiria uma mão mais firme ao volante. O cinema argentino floresceu com o advento do milénio, assistindo-se, paralelamente à produção subsidiada, a um reactivo cinema independente, de cujo movimento Abutres faz parte. Projecto de denúncia, apressado na concretização mas honrado de intenções, foi o candidato argentino ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, protagonizado por Ricardo Darín, o mesmo actor que esteve à frente do vencedor do ano anterior, O Segredo Dos Seus Olhos (2009), e marca também a segunda colaboração do realizador com a excepcional Martina Guzman (Leonera, 2008).

Carancho 2010

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