Terça-feira, Julho 05, 2011

Sucker Punch: Mundo Surreal, de Zack Snyder

Há gente a quem não se pode dar rédea solta. Começou a dar cartas com um remake de Dawn of the Dead (2004), mas foi a sua adaptação da fantasia greco-persa 300 (2007), saída da pena de Frank Miller (que estava nos píncaros por Sin City, 2005, e caiu a pique com Spirit, 2008), que o pôs no mapa, ao ponto de repetir a fórmula em aves (A Lenda dos Guardiões, 2010). Watchmen (2009) tinha por base um dos melhores livros de super-heróis de sempre (de Alan Moore), mas só se salvou no director’s cut, porque a versão comercial amputava tanto a ligação entre os personagens que a acção encontrava pouco onde se agarrar. Assim é Zack Snyder, cujo Sucker Punch é o equivalente a 1941 – Ano Louco Em Hollywood, As Portas do Céu, New York, New York ou Do Fundo do Coração. Um sonho tornado pesadelo.

Por esclarecer ficam as suas intenções, já que o farrapo de história que apresentou como Alice No País das Maravilhas com metralhadoras é asinino e degradante. Funciona na onda do sonho dentro de um sonho, mas a originalidade do esquema esgotou-se em Inception – A Origem (2010), que não era a obra-prima que se dizia, mas pelo menos fazia pensar. Pelo contrário, em Sucker Punch esses mundos estão tão compartimentados que rapidamente se percebe que nada respira entre eles ou de uns para os outros. Nem deles para a audiência.

É esse o problema de Sucker Punch, a sua completa falta de emoção. Um guião com a leveza do papel higiénico de folha simples e diálogos de tal modo displicentes que se tornam ofensivos, personagens tão subdesenvolvidas como prostitutas numa esquina, um final óbvio e a falta de um fio condutor evidente. Factores que tornam o destino das heroínas em algo que nos é indiferente, quer estejamos a vê-las lamentar a sua existência num hospício/cabaret ou a combater dragões e samurais gigantes, munidas de espadas e de um automatismo sem paralelo.

Após a cena de abertura, uma estilização em formato de videoclip extremamente presunçosa e aviltante na abordagem de um tema tão melindroso como a violência doméstica, o filme tinha de ganhar a audiência de volta, mas prefere enterrar-se cada vez mais no seu próprio mundo de imundice. A protagonista, uma adolescente vítima de abuso, presencia a morte da mãe e o estupro/suicídio da irmã, confronta o padrasto mas acaba num hospício; o padrasto paga a um dos contínuos para que a enteada seja lobotomizada e somos informados da janela de tempo que tem para escapar: o lobotomizador estará ausente durante cinco dias.

Loura oxigenada com ar de parva, a protagonista, que será conhecida por Camisa de Noite (Baby Doll), inicia então uma fantasia: o hospital transforma-se num cabaret e as outras pacientes em coristas. O cabaret parece ser fachada para um bordel e Camisa de Noite será a nova atracção. Está na hora de juntar as companheiras e congeminar a fuga. Aparentemente, quando dança, hipnotiza o seu público e as outras têm a oportunidade de apoderar-se dos objectos necessários. Enquanto dança, também ela entra em transe, passando para cenários de guerra, onde enfrenta adversários irrealistas como samurais gigantes num templo, dragões num castelo medieval, soldados alemães nas trincheiras, robots translúcidos num comboio a alta velocidade. Em nenhuma destas situações se sente o menor suspense ou receio pela sobrevivência das intervenientes, já que não as vemos abrandar ao serem agredidas no rosto por robots metálicos e serem mais velozes do que rajadas de balas. A inverosimilhança é tão grotesca que mais valia ver Camisa de Noite dançar (na sua primeira luta, é atirada violentamente através de uma pesada porta de madeira e faz uma fenda no chão de pedra ao aterrar, em vez de partir as costas). Apesar de tudo, no final, só uma escapa. Porquê essa? Porque sim.

Sucker Punch não tem história que suporte os efeitos especiais. É como assistir ao demo de um RPG com bons gráficos, mas deficiência narrativa. Há tanta coisa errada no filme que nada se aproveita. O extended cut que já saiu em blu ray tem mais 18 minutos, o que corresponde a duas cenas extras (uma delas é um musical) e a frames complementares espalhados, mas nada que mereça um segundo olhar. Sucker Punch não é mais do que imagética feminina de gosto duvidoso para satisfazer a libido de homens debochados. E acredito que nem entre esses encontre muitos fãs.

No elenco, e só para que conste, estão Emily Browning (a substituir a primeira escolha Amanda Seyfried), Abbie Cornish, Jena Malone (a substituir Evan Rachel Wood), Vanessa Hudgens, Jamie Chung (a substituir Emma Stone) e Carla Gugino (com um horrível sotaque a arranhar ao leste europeu). Na falta de David Carradine, foi resgatado Scott Glenn para fazer de mestre budista. O quase só vislumbrado Jon Hamm (protagonista da série Mad Men), tem mais relevância na outra cena apenas disponível em blu ray.

Por último, referência ao facto da cena de abertura ser suportada pela canção Sweet Dreams, dos Eurythmics, e terminar aos portões do hospício Lennox House; a personagem Foguetão (Rocket) dizer à personagem Ervilha de Cheiro (Sweet Pea) que Camisa de Noite a salvara do cozinheiro no outro dia (uma data vaga, portanto, e já minimamente distante), quando Camisa de Noite ainda não estava no hospício há mais do que um dia; e finalmente Camisa de Noite ficar trancada dentro do bunker alemão enquanto as companheiras não conseguem abrir a porta, mas a meio da luta de Camisa de Noite no interior do bunker, a porta está claramente aberta (por evidente distracção dos programadores).

Sucker Punch 2011

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