Rango, de Gore Verbinski

Rango é, no mínimo, invulgar. Primeira longa-metragem em desenho animado por computador da Industrial Light & Magic, a empresa de efeitos especiais de George Lucas, finalmente disposta a invadir uma franja de mercado da qual esteve ausente e na qual a Pixar (originalmente o departamento informático da Lucasfilm, do mesmo Lucas) e a Disney mantiveram um despique que, em 2003, fez criar uma nova categoria nos Óscares da Academia de Artes e Ciências (entre Shrek e Monstros e Cia, ganhou o primeiro). Afastada da ribalta, a Industrial Light & Magic tem perdido também no campo dos efeitos visuais para outras empresas, como a Weeta (que se evidenciou com a trilogia Senhor dos Anéis e King Kong).

Rango reúne a equipa que fez de Piratas das Caraíbas uma trilogia de sucesso: Gore Verbinski, Johnny Depp e Hans Zimmer, respectivamente atrás da câmara, à frente e nas colunas de som. O guião é de John Logan, dramaturgo que passou a guionista e somou nomeações aos Óscares com Gladiador (2000) e O Aviador (2004), tendo ganho um Globo de Ouro com Sweeney Todd (2008).

Rango é uma alucinada sátira aos western, uma delícia para miúdos e graúdos, carregada de irreverência e frescura, com suficiente slapstick para o público infantil e tiradas deliciosamente superiores a piscarem o olho aos crescidos. Assim como o Regresso Ao Futuro III colocava um Marty McFly do presente no Velho Oeste, Rango lança um excêntrico camaleão doméstico no deserto do Mojave, onde vai integrar-se numa pequena povoação, desvendar um mistério, enfrentar perigosos inimigos e tornar-se um herói. O personagem é louco, atrevido, arriscado e nem sempre age pelas melhores razões, o que o coloca na corda bamba entre a simpatia e o descrédito, mas esse risco acaba por compensar. Irreverência é a palavra de ordem. E todos os pormenores contam, dos narradores mariachi (com as vozes da banda Los Lobos) às referências aos grandes clássicos do western spaghetti de Sérgio Leone.

“Quem controla a água, controla tudo” já era o mote do último 007 – Quantum of Solace (2008), escrito pelo oscarizado Paul Haggis. Esse é também o drama dos habitantes de Pó, uma pequena povoação que se debate com penúria de água, o seu bem mais precioso. Quando a torneira que só abre um dia por semana seca, está na hora de descobrir o responsável. O drama político encontra raízes bem fortes na exploração capitalista, com um Mayor corrupto a financiar os seus planos de desenvolvimento à custa dos bens de terceiros. Só é pena que a realidade não conflua na mesma direcção que a ficção. São inúmeros os filmes com final feliz de pendor claramente socialista (ocorre-me, assim de repente, De Malas Aviadas, 2009), mas o público, autista, não se revê naquilo que tem de ser feito. Satisfeito e elevado à saída da sala de cinema, não reconhece as mesmas desigualdades politico-económicas na trama societária, nem se sente encorajado a lutar pelo que lhe pertence.

Seria impossível encontrar melhor voz para dar vida a Rango do que Johnny Depp, que literalmente mescla os seus personagens de cérebro frito num só, o de Delírio

Rango 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo
4 Comments:
beautifull movie.
there's a saying about it's not us that choose the books we read, but rather books choose you. I can't help but feel the same way about movies.
the same way I can't help but to review myself in the caracther of Rango.
If I had seen the movie in some other period of my life, it wouldn't have the same efect on me.
"who am I ? (...) my actions always made the worst possible way for everybody ..." says Rango. Feel exactly the same way. And feel the emptiness and loneliness as well at this very moment.
Sometimes being lonely is not only the best way, it's the only way. You were right.
Being alone doesn't scares me right now...at all, not more than all the loneliness were i've been hidden all of this years.
Hope I can find myself in this surch process...and my water too.
Hope I can smile again. Hope you can too.
post de notjustanotherblog às 12:49 de 13/11/2011 (rejeitado por erro do blogger):
beautifull movie.
there's a saying about it's not us that choose the books we read, but rather books choose you. I can't help but feel the same way about movies.
the same way I can't help but to review myself in the caracther of Rango.
If I had seen the movie in some other period of my life, it wouldn't have the same efect on me.
"who am I ? (...) my actions always made the worst possible way for everybody ..." says Rango. Feel exactly the same way. And feel the emptiness and loneliness as well at this very moment.
Sometimes being lonely is not only the best way, it's the only way. You were right.
Being alone doesn't scares me right now...at all, not more than all the loneliness were i've been hidden all of this years.
Hope I can find myself in this surch process...and my water too.
Hope I can smile again. Hope you can too.
Obrigada Ricardo.
yes, you were considered spam. weird stuff.
but it's cleared, now.
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