Quarta-feira, Julho 27, 2011

O Código Base, de Duncan Jones

A ideia é tão gasta como a mais antiga profissão do mundo, mas tanto uma como outra continuam a bulir. Quem não gostaria de poder voltar atrás no tempo e corrigir um evento importante do passado, ou até ter múltiplas tentativas até acertar? Regresso Ao Futuro (1985) é um título que diz tudo, mas outros há em que o herói regride no tempo para alterar um acontecimento, e muitas vezes é incapaz de retornar até o conseguir. O tema é abordado em prateleiras inteiras de celulóide, mas aqui ficam alguns exemplos: Déjà Vu (2005) Groundhog Day (1993), Run Lola Run (1998) e Frequency (2000), ao qual não é alheio o pequeno ecrã: Day Break (2006) e Quantum Leap (1989-1993).

Desde os pré-históricos métodos de secagem de alimentos ao quinhentista uso do sal, esta é mais uma prova de que uma ideia pode continuar fresca, apesar de já fazer parte da mobília. A ideia de O Código Base começou a circular em 2003, mas talvez lhe faltasse ganhar forma. Isto porque o seu autor, Ben Ripley, se habituara a à função de script doctor, achando que seria fácil vendê-la sem realmente ter de escrevê-la; quando nenhum investidor respondeu positivamente ao seu pitch, teve de render-se às evidências. Finalmente com algo para folhear, Duncan Jones, que tinha acabado de admirar o mundo com o seu filme passado na lua (Moon, 2009) apaixonou-se pela dinâmica e pelo puzzle. A audiência seguir-lhe-ia os passos.

O Código Base salta imediatamente para a história, sem nos preparar para a perplexidade da trama. Só podia ser assim. Um indivíduo acorda subitamente num comboio, sem se recordar de como aí chegou nem de quem é a mulher à sua frente, com quem está a conversar. Tenta compreender as circunstâncias, mas o comboio explode numa bola de fogo. Irá passar por essa experiência incontáveis vezes até montar todas as peças de um puzzle que o impede de libertar-se, a menos que apanhe o responsável pela explosão e salve todos os passageiros a bordo.

O filme lida com questões de justiça e moralidade, mas no fundo é uma superficial aventura com laivos de ficção científica, fora do axioma do espaço contínuo e a apostar em realidades paralelas, num «tentar até acertar» que entretém na acção e não desmerece no romance. Nesta perspectiva, a aposta pode ser acarinhada, porque nos faz viver o dilema e as atribulações do herói, tomando sempre o seu partido e fazendo figas por ele.

Claro que o guião não é livre de falhas na lógica interna, muitas das quais só se engolem com relutância, mas, curiosamente, não estragam a diversão, porque se sente que as pontas estão suficientemente presas, ainda que ligeiramente lassas. Desculpável porque, afinal, O Código Base não passa de um eficiente blockbuster de verão e, nessa categoria, passa todos os testes. Jake Gyllenhall está excelente como o paranóico e determinado protagonista e as duas co-adjuvantes, Vera Farmiga e Michelle Monaghan, não lhe ficam atrás. Jeffrey Wright é que tem perdido tanto talento quanto cabelo, o que se vem a notar desde Casino Royale (2006).

Perifericamente, aponto os sapos mais indigestos: se o código base é um programa de computador que permite ao herói reviver os últimos oito minutos de vida do cérebro de um morto, como é que adivinha também as reacções dos outros passageiros com quem entra em contacto, e quão fidedignas são? Como é que se consegue recuperar informação de um cérebro carbonizado por uma explosão? Se a única pessoa que sabia onde estavam os explosivos era o terrorista, como é que a memória de um passageiro anónimo pode ajudar a encontrá-los? Se os padrões correm dentro de um circuito fechado, como uma espécie de RPG, como pode tornar-se realidade, mesmo que paralela, exterior ao programa?

Source Code 2011

5 Comments:

Blogger Magda said...

E deixo mais perguntas, porque realmente não percebi certas coisas: como é que ele (que estava meio morto, de olhos fechados, dentro daquela redoma) viu o emblema da Goodwin? :S Era uma memória...? E como é que sabia o email dela? E o final significou o quê? Que ele apoderou-se para sempre da mente daquele professor?

Mas pronto. Até gostei.

8/30/2011 10:14 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

ele via o que via porque essas imagens lhe eram impressas no cérebro, neurologicamente. a forma como o cérebro dele as interpretava era através daquela imagem do cockpit com um monitor de TV. ele via da goodwin o que nós víamos dela também.

qual foi a relevância do emblema? não me lembro...

era uma realidade paralela, o tal senhor morreu logo da primeira vez que houve uma explosão, ele apenas lhe tomou o corpo na realidade em que sobreviveu.

8/30/2011 10:33 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

o tal senhor morreu na nossa realidade. as outras passaram-se dentro do sorce code, que pelos vistos cria realidades paralelas. e, como o jake passava de uma realidade para outra, tanto conseguiu telefonar ao pai como mandar um email à vera.

8/30/2011 10:48 PM  
Blogger Magda said...

Através do emblema ele investigou e percebeu (durante uma das "estadias" no comboio) que tipo de entidade militar era aquela em q ele estava "morto".

Ok, ok, makes sense! Obrigada pelos esclarecimentos!

8/30/2011 10:49 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

o actor que fez a voz do pai dele foi o scott bakula, que na série quantum leap fazia exactamente o mesmo que ele, mas só tinha uma chance de acertar. por sorte, era muito melhor que o jake :D

8/30/2011 10:51 PM  

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