Hanna, de Joe Wright

Por muito que se quisesse aplaudir uma mini Jason Bourne, agora que o espião de Robert Ludlum recuperou a memória e foi de férias, Hanna não é substituta à altura. História de uma adolescente educada numa floresta finlandesa, sem contacto com ninguém para além do pai até aos 16 anos, período durante o qual foi treinada em combate e a enfrentar os elementos. Caçando para comer e usando o fogo para cozinhar, Hanna só sabe o que o pai a ensinou e o que leu em livros (sem electricidade, nunca ouviu música ou a voz de terceiros). Como prenda de aniversário, pede para conhecer o mundo exterior, o que lhe é concedido com um aviso: a partir desse momento, será caçada por uma implacável assassina que não descansará até vê-la morta.

A aventura começa e Hanna revela-se uma máquina assassina, apesar de franzina, capaz de enfrentar exércitos de soldados treinados e escapar por tubagens de edifícios subterrâneos, a cujas plantas nunca teve acesso. Agora em Marrocos e sem dinheiro, tem de reunir-se ao pai em Berlim, o que faz com uma perna às costas e outra no furgão de uma família neo hippie que lhe dá, de certa forma, guarida. É aqui que ela vê televisão pela primeira vez, ouve música ou quase beija um rapaz, mas nenhum destes episódios apresenta um mínimo sinal de entretenimento.

Hanna resulta numa antecipação do novo filme d'Os Marretas (2011), devido ao número de sapos que obriga a engolir. A agente secreta que caça Hanna é demasiado afectada e teatral (defeito que Cate Blanchett já tinha demonstrado

Mistura de Identidade de Bourne e Spy Kids, esta é a proposta de Joe Wright, um realizador que não tinha deixado as balizas do melodrama quando tomou a seu cargo este projecto, que entretanto saíra das mãos muito mais capazes de Danny Boyle. Com Orgulho e Preconceito (2005), Expiação (2007) e O Solista (2009) no saco, Joe Wright apresenta-se como um desportista que pagou a anuidade do ginásio sem pôr lá os pés, achando que o mero pagamento da jóia iria musculá-lo por osmose. Estava enganado. O trabalho de câmara, de actores e de montagem é desadequado e não há uma única sequência em todo o filme que faça o sangue fervilhar. Frio e distante, assim se desenrola a inconcebível trama de uma miniatura de super-heroína que é perseguida por pérfidos agentes do Mal e vai encontrar clímax num abandonado parque de diversões baseado nos contos dos irmãos Grimm.

Curiosidades sobre o dito Parque de Diversões Grimm: o seu nome verdadeiro é Spreepark, situa-se

A banda sonora dos Chemical Brothers lembra a dos Leftfield para Pequenos Crimes Entre Amigos (1995), de Danny Boyle, mas Hanna falha em tudo, até na música. De resto, pode dizer-se que Saoirse Ronan se porta melhor do que Angelina Jolie em Salt (2010), mas também não é difícil. Eric Bana continua o desconsolo que tem evidenciado desde Hulk (2003) e sobre as caretas de Cate Blanchett estamos conversados.

Hanna 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo
1 Comments:
Do sul de Espanha à Alemanha, Hanna não parece comer nada, e mesmo aí come apenas um ovo cru.
As coincidências com a família da carrinha. Esgueira-se para o interior da carrinha a meio da noite, na noite seguinte tenta fugir e dá de caras com a filha na piscina.
Se os três mercenários perseguiram Hanna a pé, porque é que a família não arrancou, especialmente depois da filha deles ter visto Hanna matar um inimigo?
(Des)informação sobre o pai à distância de um clic… estas coisas não são abafadas?
Da Casa Grimm, Hanna e Marissa começam a correr do mesmo ponto de partida e Hanna, criança prodígio, leva um grande avanço, mas Marissa, de saltos altos, encontra maneira de fazer um percurso mais longo, mas chegando à frente de Hanna. E lançar uma fecha como um foguete, sem sequer flectir o braço ou tomar balanço?
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