Segunda-feira, Junho 06, 2011

Sem Identidade, de Jaume Collet-Serra

Um professor norte-americano chega a Berlim para uma palestra. No aeroporto, a sua pasta pessoal é esquecida no passeio pelo taxista. À chegada ao hotel, apercebe-se do facto e não chega a entrar, apanhando, com urgência, outro táxi de volta ao aeroporto, na esperança de reaver a pasta. A esposa fica a fazer o check-in, onde lhe indicam que houve uma alteração à reserva e o quarto será outro. A caminho do aeroporto, o táxi é tolhido num acidente e o professor fica quatro dias em coma. Quando acorda, a esposa não o reconhece e está acompanhada de outro homem, que se identifica como o marido e tem documentos para prová-lo.
Este é o tipo de enredo que, ou se aceita, ou se encara com cepticismo. Ao céptico, resta-lhe desmontar o esquema do argumentista: a) o professor nunca acordou do coma e é tudo imaginado por ele, b) é o amante e não o marido da esposa do professor (ele recorda-se de fazer amor com ela) e está abalado pelo acidente, c) ou é tudo um complot para tomar a identidade do professor, mas a depender de demasiados acasos para ser credível.
Afinal, as pontas soltas são todas rematadas e, nesse ponto, Sem Identidade dá a volta por cima. Isso é o mínimo que pode pedir-se a uma trama que prime pela lógica, mesmo que até então pareça depender de todo o tipo de imprevistos. Apesar disso, o grau de impausibilidade atingido entretanto é tal que o caldo está entornado e não volta para a malga. A história baseia-se no romance do francês Didier Van Cauwelaert, Hors de Moi (2003).

Jaume Collet-Serra, realizador catalão responsável pelo remake americano de Casa de Cera (2005) e Órfã (2009), é formalmente irrepreensível, mas a sua experiência em filmes de terror de progressão lenta não o preparou para um filme de acção. Talvez por isso, Sem Identidade não se confunde com Taken (2008), apesar do slogan Take Your Life Back e do protagonismo de Liam Neeson. Taken foi essencialmente um filme de acção de sensibilidade brutalmente francesa (um ex-agente da CIA ruma a Paris para salvar a filha, raptada por máfias do leste para tráfico humano, deixando um rasto de destruição), enquanto que Sem Identidade se centra no mistério da troca de identidade, quase tão perdido como o público, apenas avançando, e tropegamente, no campo da acção a meio do filme. Taken também foi responsável por dar a Neeson o papel de Hannibal Smith na adaptação de A Team (2010).

Para além do enguiço entre suspense e acção, Sem Identidade facilita noutros campos lógicos. Liam Neeson não precisa da cabine do Super-homem para mudar de roupa: foge do hospital vestido numa bata e o parco volume que leva debaixo do braço revela-se um saco Sport Billy (não só tem calças, camisa e camisola, como sobretudo e sapatos); ainda maior ilusionismo é despir-se no quarto e ir tomar um duche, ter de saltar pela janela da casa de banho, ao ser interrompido, e darmos por ele vestido dos pés à cabeça, com sobretudo incluído. Numa ocasião, é perseguido por um SUV mais potente, que constantemente lhe corta o passo, mas no segmento da fuga em marcha à ré, o seu carro parece mais veloz do que em quarta (e não se entende como o professor insiste em conduzir, quando a sua companheira é taxista: mais habituada ao carro e à cidade).

Liam Neeson é bem acompanhado, no elenco, por Diane Kruger, January Jones, Frank Langella e Bruno Ganz. Todos eles suficientemente sólidos para que o interesse não esmoreça e o resultado seja, no mínimo, interessante.

Unknown 2011

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