Padre, de Scott Stewart

A homónima graphic novel sul-coreana de Min-Woo Hyung passa-se entre três períodos históricos diferentes (as Cruzadas, o Velho Oeste e o presente) e tem como vilões doze anjos que combateram ao lado de Deus contra Lúcifer, mas se revoltaram por este dar preferência aos humanos, passando (passe o escárnio) a infernizá-los. Este set up terá, porventura, atraído o realizador de Legião (2009), mas a adaptação é em nome apenas.

O supervisor de efeitos especiais feito realizador Scott Stewart e o guionista estreante Cory Goodman construíram, de raiz, uma história passada num futuro pós-apocalíptico, um twist na eterna luta entre humanos e vampiros (que não existiam na graphic novel). Afinal, se Van Helsing já usava água benta e crucifixos, para além de cebolas e estacas, para combater Drácula, natural seria que, um dia, os homens do clero entrassem directamente ao barulho. Estes usam shurikens e boomerangs em forma de cruz, facas em forma de garfo e assustam com a medonha e dispensável tatuagem do símbolo matemático da soma que lhes mancha do meio da testa à ponta do nariz.

Peso-pluma, a fita introduz o herói como uma espécie de Blade ou Buffy, um sacerdote com força e habilidade sobre-humanas, capaz de enfrentar os velozes vampiros de igual para igual. Padre não se preocupa muito com a história, da mesma forma que com os nomes dos personagens: Padre, Madre (Priestess) e Chapéu Preto (porque usa um) lideraram o elenco. Também não se preocupa com os vilões. Em vez de atraentes e articulados como a literatura e o cinema nos habituaram, os vampiros são meros brutos de grande porte e força, animais aos quais não se reconhece superior inteligência à do mosquito, outra classe apreciadora de sangue humano. Para o efeito, esta raça julgava-se exterminada, com os derradeiros espécimes confinados ao que restava das suas antigas colmeias, mas afinal estava a reagrupar-se para uma devastadora vingança. Quem não acredita é o Sumo Sacerdote (será Bispo, será Papa?), chefe de uma Igreja autoritária, intolerante e cega na manutenção dos seus privilégios, que governa as actuais cidades humanas e não quer ouvir falar em vampiros, considerados coisa do passado. O Padre tem, então, de meter mãos à obra, sozinho, sob pena de excomunhão e clausura.

Por explicar ficam os poderes destes clérigos, uma pequena elite de ninjas de hábito, que poderão ser produto de bênção divina, experiência genética ou mero treino wushu. E não se percebe, também, porque é que não pertencem a um alto grau de cavalaria, em vez dos indigentes e párias em que se tornaram, olhados com desconfiança e desprezo. Nem o Vaticano lhes dá emprego.

Percebe-se que o guião foi escrito em cima do joelho, imaginado como uma mistura de A Desaparecida, com John Wayne (1953) e de Equilibrium (2002), com Christian Bale. A sobrinha do Padre foi raptada por vampiros, algures na estepe desértica ao largo da cidade, e este mete-se a caminho, acompanhado por um rapaz de crachat apaixonado pela moça. Aos dois junta-se a Madre, platonicamente partidária pelo Padre, com uma túnica tão complicada que nunca lhes permitiu dar o passo que lhes tiraria o rótulo de virgens.

Acção estilizada com suspense à mistura, uma curiosa abertura em desenho animado e a certeza de que Paul Bettany não será o próximo Jason Statham. Maggie Q mantém o estatuto da mais esquelética lutadora de artes marciais do celulóide (O Rei Dos Lutadores, 2010), mas pelo menos as roupagens de sacerdotisa cobrem-lhe a diáfana massa muscular. Quanto ao ratio da grandeza do talento de Cam Gigandet, este cinge-se aos seus ausentes abdominais. Karl Urban anda há duas décadas a fazer pela vida, entre os EUA e a Nova Zelândia, e já tinha visto uns monstros muito semelhantes a estes vampiros, em Doom (2005).

Para filme de acção, tem pouca e nenhuma é original. A luta em cima do comboio lembra a de Matrix Reloaded (2003), com Morpheus e um Smith em cima do TIR; é patético que os poderosos golpes atirem brutalmente o adversário pelo ar, mas este nunca aterra fora do comboio. O maior handicap de Padre, contudo, é a cobardia da sua premissa. Se o Sumo-Sacerdote não merece a posição que ocupa e rege as suas decisões pela soberba e egoísmo, colocando os fiéis e cidadãos em perigo, deveria ser removido do cargo, com a morte, se necessário. Foi o que fez o herói de Equilíbrium, quando confrontado com um dilema semelhante. Paul Bettany andou a flagelar-se pela Igreja Católica no Código DaVinci (2006) e foi promovido a Anjo Miguel em Legião (2009), mas não foi suficiente; decapitar um Papa ainda não está no seu currículo.

Priest 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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