Quinta-feira, Junho 23, 2011

Água Para Elefantes, de Francis Lawrence

Outrora o mais impressionante espectáculo do mundo, o circo já foi a única maneira de populações urbanas se maravilharem com animais selvagens, acrobatas, malabaristas e palhaços, mas eram igualmente tempos difíceis, com uma Grande Depressão ainda bem presente nas memórias e nas carteiras vazias de um público desesperado por alguns miseráveis momentos de ilusão. Contudo, em vez de centrar-se na magia que se concentrava por baixo da tenda de lona, Água Para Elefantes fica-se por um vulgar triângulo amoroso, onde um jovem se apaixona pela mulher do chefe. O primeiro é voluntarioso, a segunda é fria e o terceiro é bi-polar. Sim, parece um circo dentro de um circo, mas a curiosidade decresce na mesma medida que o tamanho de cada matrioska.

A envolvência circense não deixa de ser bem vinda, mas nada no filme se ergue do chão, nem o romance, nem os actores, nem a câmara aborrecida, provavelmente picada pela mesma mosca tzé-tzé que os felinos africanos tentam enxotar com as suas caudas cansadas. A maior estrela do filme é um elefante tailandês, que motivou denúncias de maus tratos por parte de associações de protecção animal e uma tentativa de boicote ao filme através do Facebook, mas, diga-se de passagem, nos tempos que correm, já ninguém tem a certeza de estar a ver um elefante verdadeiro ou uma montanha de pixeis articulados.

A história é delicodoce no romance histórico de Sara Gruen e deslavada na versão cinematográfica de Francis Lawrence, realizador que veio dos videoclips e vai piorando a cada filme que faz (Constantine, 2005 e I Am Legend, 2007). O argumentista Richard LaGravenese já escreve para cinema há duas décadas, mas tem acertado tanto como errado. Entre as suas melhores prestações estão As Pontes de Madison County (1995), O Encantador de Cavalos (1998) e Páginas de Liberdade (2007), mas também assinou Isto (Não) É Um Rapto (1994), Beloved (1998) e P.S. Eu Amo-te (2007).

O elenco é ombreado por Robert Pattinson, Reese Witherspoon e Christoph Waltz. Pattinson lá vai apanhando sol em tudo o que não seja Crepúsculo (2009-2011), Witherspoon não parece encantada nem com marido nem com o amante e Waltz está a meio termo entre o seu impecável nazi de Sacanas Sem Lei (2009) e do anedótico ganglord de Green Hornett (2011).

Emoção seria, aqui, a palavra de ordem, mas verifica-se ausente. Presente esteve a pasmaceira e alguma incongruência. O dono do circo atirava homens do comboio fora, para não lhes pagar ordenados, e não havia um rasto de mortos junto às linhas de caminho de ferro que corresse os jornais e mobilizasse a polícia? E como é que o herói, todo dorido de uma pesada agressão e com horas de atraso, chega, a pé, ao local onde o comboio do circo está, sabe-se lá a quantas centenas de quilómetros de distância do ponto de partida, para perpetrar a sua vingança?

Water For Elephants 2011

2 Comments:

Blogger Isabel said...

Apesar de reconhecer alguns dos pontos fracos que mencionaste sobre este filme, vê-lo não me desagradou de todo. Não li o livro que deu nome a esta história, o que posso dizer é que a crise de inspiração fílmica em Hollywood é tão grande que ver bestsellers adaptados ao cinema é o prato do dia. Só que nem todas as adaptações são bem feitas e fazem justiça ao livro, mesmo quando o realizador é bom. Veja-se o exemplo das medíocres e entediantes adaptações que Ron Howard fez de dois dos bestsellers de Dan Brown. Voltando a «Água aos Elefantes», apesar de simpático, o filme falha quando destaca mais o romance dos personagens de Pattinson e Witterspoon e mostra pouco do espectáculo do circo em si e como ele arrastava multidões no contexto histórico e social dos EUA dos anos 30. A química entre os protagonistas é puro gelo e isso nota-se. Numa entrevista Witterspoon disse que na altura das filmagens Pattinson estava muito constipado e que as cenas amorosas com ele custaram-lhe muito. Desde que ganhou o óscar pelo seu papel incrível como Hans Landa em «Sacanas sem Lei», Christoph Waltz só tem dado corpo a vilões, e gostaria portanto de vê-lo noutro registo. ;)

6/25/2011 2:59 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

o circo é mero cenário para o romance e o romance é frio como um cubo de gelo.

habituado à kristen stewart, não admira que o robert não tenha ficado encantado com a reese. e ela está antipática do início ao fim. cada vez estou mais desiludido com o waltz, já no green hornet está de fugir.

constipado? não me digam que não podiam adiar as cenas de beijos por uma semana, enquanto ele recuperava. entretanto, filmavam outras cenas.

quanto à grande depressão, nem se chega bem a perceber, a não ser por ele dizer que passaram algumas cidades sem parar porque não havia gente com dinheiro para pagar bilhetes.

há tantos retoques de CGI na imagem que eu fiquei o filme todo na dúvida de o elefante ser verdadeiro. li que sim, que é um elefante tailandês.

o robert não ensinou o elefante, apenas descobriu por acaso que este já tinha sido ensinado antes por romenos e que obedecia a comandos em romeno.

enfim, o melhor filme do francis lawrence continua a ser o primeiro, o constantine.

6/25/2011 10:12 PM  

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