Tekken, de Dwight Little

Tekken começou por ser um jogo de salão de jogos, em 1994, mas a sua popularidade tem sido transversal a todas as plataformas entretanto disponíveis para o mercado. Já com cinco sequelas e diversos spinoffs, os jogos resumem-se ao desempenho de um número limitado de lutadores num torneio de artes marciais intitulado Rei do Punho de Ferro, promovido pela corporação Mishima Zaibatsu, e o vencedor torna-se presidente da empresa. O filme tem, por base, o torneio, mas junta-lhe alguma motivação aos personagens, apostando num twist interessante, ainda que mal aproveitado.

Dwight Little tem alternado, sem motivo aparente, os filmes onde o seu nome aparece como Dwight H. Little e desde 1986 que se passeia pelo cinema e pela televisão. No campo das artes marciais, trabalhou com Steven Seagal (Marcado Para Matar, 1990), Brandon Lee (Fogo Rápido, 1992) e Wesley Snipes (Homicídio na Casa Branca, 1997), sendo rápido e confiável. Talvez por isso o seu contributo para a televisão seja extenso, com episódios para séries tão díspares como Millenium, Ficheiros Secretos, Causa Justa, 24, Prison Break, Castle, Dollhouse e Bones. O seu último filme datava de 2004 e era uma pobre sequela de Anaconda (1997).

A coreografia de luta está a cargo do francês Cyrill Raffaelli, acrobata de circo, lutador de karate shotokan e wushu. Impressionante à frente das câmaras, Raffaelli pode ser visto a enfrentar Jet Li em O Beijo Mortal do Dragão (2001), Jason Statham em Correio de Risco (2002), Bruce Willis em Die Hard 4 (2007) e a co-protagonizar Os Gangues do Bairro 13 (2004). O coordenador de duplos é Eric Norris, filho mais novo de Chuck Norris, que também já não é novato nestas andanças.

Filmes sobre torneios de artes marciais são tão antigos como Hong Kong, com a lenda de Bruce Lee a ser construída em redor de O Dragão Ataca (1973), a carreira de Jean-Claude Van Damme lançada com Bloodsport (1988), Karate Kid (1984) a recuperar a auto-estima e o respeito de todos ganhando um torneio. Outros videojogos de torneios de artes marciais transitaram já para o pequeno e grande ecrãs (Mortal Kombat, 1995, DOA – Guerreiras Mortais, 2006, e O Rei dos Lutadores, 2010). Da mesma forma que biquinis só precisam de praia, artes marciais só precisam de um torneio. Quentin Tarantino (Kill Bill, 2003) retirou o género do guetto onde os anos 90 o tinham abandonado e deixou claro que, bem conduzido, o género arrastará sempre multidões.

Num filme de artes marciais, a história poderá ser um bónus ou uma maldição, já que a audiência-alvo a dispensa, mas os estúdios não. Mantê-la simples é o truque, porque os olhares vão estar depositados nas coreografias de combate. Tekken, em termos de enredo, até começa de forma concisa e sem distracções, mas decide estragar o arranjinho. Complica desnecessariamente a trama que envolve o herói e o vilão, com infeliz resultado de tempos mortos, mas, ainda assim, não foge muito à sua natureza, pelo que é tolerável. O que se justifica menos é o desequilíbrio de eficiência entre os primeiros combates e os finais, com indesejado decréscimo de qualidade.
No fundo, Tekken é um subproduto para consumo rápido e cumpre a sua missão de forma razoável. Entretém, ainda que pudesse ser bem melhor sucedido, tivessem as lutas maior impacto e as reviravoltas do argumento sido deixadas no papel. Jon Foo, acrobata de circo e membro da equipa de duplos de Jackie Chan, está à altura do protagonismo, tendo melhor figura e desempenho do que Jay Chou em Green Hornet (2011) ou Rain em Ninja Assassino (2009). Kelly Overton ostenta um corpo agradavelmente atlético (quantos filmes de artes marciais não têm modelos esqueléticas a imitarem lutadoras), a presença de Cary-Hiroyuki Tagawa (o vilão de Mortal Kombat) é simbolicamente relevante e Gary Daniels até bocejou, de tantos filmes iguais a este que traz no currículo. Luke Goss, que teve oportunidade de ser o principal oponente nas sequelas de Blade (2002) e Hellboy (2008), não luta, mas é sempre bem-vindo.

Tekken 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo

1 Comments:
Falta a referência ao fantástico "decote" das calças de Kelly Overton ;)
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