A Rapariga do Capuz Vermelho, de Catherine Hardwicke

A história do Capuchinho Vermelho conta-se em duas penadas: uma menina vai visitar a avó doente, através de um caminho na floresta, e um lobo quer comê-la, mas receia fazê-lo em público. A menina conta-lhe que vai a casa da avó e o lobo sugere-lhe que lhe leve flores. Enquanto a menina se distrai a apanhar um bouquet, o lobo corre até à casa da senhora, come-a e aguarda pela neta. Quando esta chega, faz-lhe as três perguntas da praxe, olhos, orelhas e dentes e come-a de seguida. Aparece um lenhador, abre o lobo ao meio e saem do seu interior a Capuchinho e a avó, sãs e salvas. A barriga do lobo é enchida de pedras, pelo que, quando acorda, sente-se cheio de sede e acaba por cair ao poço. Disseminada por Charles Perrault e pelos irmãos Grimm, a moral da história é que não se deve viver sozinho, onde é perigoso, mas em comunidade, onde o bem comum é protegido.

A Rapariga do Capuz Vermelho serve-se do título apenas como ardil. Em vez de inovar e expandir o conto dos Grimm ou de Perrault, plagia o conceito de A Companhia dos Lobos (1984), do mesmo Neil Jordan que surpreendeu igualmente ao abordar o universo vampírico (Entrevista Com O Vampiro, 1994). A realizadora Catherine Hardwicke, expulsa da saga Crepúsculo (2009) depois do primeiro tomo, manifesta saudades de Jacob e transforma o lobo do Capuchinho num lobisomem de CGI extremamente económico, tanto em técnica quanto narrativa, ao ponto de até ser bicho com aversão por prata. Como de lobisomens está o inferno cheio, abre-se o campo à inclusão de um ambiente roubado a As Bruxas de Salém, dramaturgia de Arthur Miller escrita em 1953 para reflectir sobre a lista negra do Senador McCarthy, mas dramatizando eventos reais de 1692, para confundir políticos menos capazes. Assim, impregna-se a aldeia do Capuchinho Vermelho com a desconfiança generalizada dos vizinhos e a acusação de bruxaria a mulheres locais. Porque Stephen Sommers pôs tudo o que era monstro sagrado da literatura no mesmo saco e abanou (Van Helsing, 2004), A Rapariga do Capuz Vermelho é, uma vez mais, pronta a copiar e introduz um padre de espada e armadura, a fazer as vezes do caçador de vampiros de Bram Stoker e ainda de inquisidor da Santa Sé, que se sabe que, de santa, nunca teve nada, e até há lugar para forjar uma espécie de O Homem da Máscara de Ferro (Alexandre Dumas).

Catherine Hardwicke, a cumprir as expectativas, não era a pessoa indicada para realizar mais uma história de sobrenatural adolescente. Aliás, pô-la atrás das câmaras é, inevitavelmente, equivalente a transformar uma grande encenação da Broadway numa modesta peça de escola.

Em mãos tão despreocupadamente incompetentes, a história tropeça de cliché em cliché, num amadorismo inadmissível que cruza na diagonal toda a produção. Não é só Hardwicke ou o CGI, também os actores revelam desnorte, a excluir Amanda Seyfried e Julie Christie, que se aguentam nos seus postos. O outrora fantástico Gary Oldman perde-se em excessiva lascívia, o que faz dele imediata persona non grata; Lucas Haas é a mais famosa testemunha de um crime numa casa de banho pública (A Testemunha, 1985), mas exprimir uma facada nas costas é coisa que ninguém se lembrou de ensiná-lo a fazer; Virgínia Madsen não tenta fazer mais com o que não tem. De Crepúsculo, Catherine Hardwicke não trouxe só o actor Billy Burke (o pai de Bella), mas também aquele que ela queria por força que representasse Edward Cullen (Shiloh Fernandez), mas Kristen Stewart rejeitou. Curiosamente, também Amanda Seyfried tentou recusá-lo em A Rapariga do Capuz Vermelho, mas deixou-se convencer pela realizadora. Infelizmente, o actor não tem o menor carisma ou credibilidade. As filmagens em Vancouver também aproximam os dois filmes.

A Vila (2004), de M. Night Shyamalan, é a prova de que o material original dava para mangas, não só vermelhas, como muito mais criativas. Mas, não; tem-se apenas uma minúscula aldeia de lenhadores sem fibra, assustados perante um lobisomem durante vinte anos e a baixarem a cabeça ao salvador de cruz ao peito; onde uma mãe conta à filha da ilegitimidade da irmã desta, em plena praça cheia de gente, mas o sussurro deve ser suficiente para assegurar o segredo; se mata um lobo raquítico e se insiste que é a besta que amedrontou duas gerações; se diz que o lobisomem rompeu as tréguas que este nunca assinou com as suas patas pouco dadas a segurar canetas.

Insiste-se que o lobisomem é um morador da aldeia, de modo a instalar a desconfiança. Mas, se há uma lua cheia a cada trinta dias, como é possível que os familiares do lobisomem, em casebres de uma assoalhada com uma cortina a transformar em duas, nunca tenham percebido que este passou fora de casa duzentas e quarenta noites, precisamente as noites em que toda a gente tinha medo de pôr um pé fora da porta? Enfim...

Red Riding Hood 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo
8 Comments:
O blog está muito interessante, Ricardo.
Bravo!
Abraços,
O Falcão Maltês
Caro Falcão,
Obrigado pela opinião, espero que regresses para espreitar outros textos e deixes o teu comentário, seja ao teor da crítica ou ao filme em si.
Espreitei o teu blog, que voa sobre décadas muito anteriores do meu. vou continuar a ler. torci o nariz ao facto de ser obrigado a ouvir música no blog. Aconteceram duas coisas: a primeira, é que já estava a ouvir música minha e a tua sobrepôs-se. Outra, é que abri um link da tua página noutro separador e ambas as páginas tocaram a mesma música, mas desencontrada.
Um abraço
Curto todos os filmes dessa realizadora. Acho-a visualmente muito capaz e neste a Catherine Hardwicke dotou-o de aspectos góticos, que são ainda mais potenciados pelo visual da cinematografia e sonoridades das canções/score (adoro a OST - muitas vezes ouvi algumas das faixas).
Não é grande filme é verdade, é sim um entretenimento bastante bem definido para um público juvenil, na senda de Twilight, classifiquei-o por 6,5/10 e dá-me muito gosto em o ver (já o revi há umas semanas atrás).
Ó Armindo, isso não se diz nem a brincar!, gostares dos filmes desta realizadora... o Thirteen ainda vá que não vá, foi escrito por uma adolescente, com adolescentes e para adolescentes... Os Reis de Dogtown confesso que não vi, mas o trailer, à época, não me puxou. Agora o 1º Twilight é uma valente bodega...
Quanto a este Capuchinho, gosto de argumentos inteligentes e este tem tanta coisa estúpida que gastei nelas dois parágrafos...
E nunca fui grande fã da Amanda Seyfried, tenho sempre medo que os seus olhos saltem das órbitas :P
Compreendo-te. É o que dá um tipo como eu ter assim tão maus gostos estragados... e ver beleza neste filmezeco.
A Amanda, sim ela realmente parece que está sempre na sanita ou então que tem um butt-plug enfiado constantemente (não sei os nomes dessas coisas desses mundos de devassidão... eheheh!).
Admito que sou um mau cinéfilo... tenho de me esconder atrás de um arbustozeco... (o tanas... às onze!!!)
se bom gosto estragado é mau gosto, então, a contrario, o teu mau gosto devia dar... :)
pobre amanda... mas antes ela que a serôdia da scarlett johansson.
o que é que acontece às onze?
Nada, "às onze" é apenas uma expressão de negação... nada mais que isso.
Deixa lá... Os meus gostos ao menos têm um fã: eu!
É por isso que até me custa escrever sobre filmes... gosto de os ver e isso está a começar a chegar-me. Se era mau cinéfilo... agora como blogger também no mesmo caminho... enfim.
não sei o que te diga, mas acho que estás a ficar deprimido. lighten up, eu também tenho os meus gilty pleasures :)
Enviar um comentário
Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home