Terça-feira, Maio 31, 2011

Peste Negra, de Christopher Smith

Mais um prego no caixão de Nicolas Cage, Black Death junta-se às provas de que um filme sem o actor é, invariavelmente, superior a um em que este se mostre. No mesmo ano de Época das Bruxas (com Cage), Black Death assume um tema próximo, incluindo peste bubónica, bruxaria e heresia mas, em comparação, é quase divino.

Século XIV, religião, ignorância e intolerância. A peste negra grassa por toda a Inglaterra, matando indiscriminadamente, mas padres e monges, nos mosteiros que sobrevivem, clamam que se trata de castigo divino, a expiar os humanos dos seus pecados. Em vez de boa nova, é considerada obra do demónio a existência de uma remota aldeia livre da doença e um grupo de facínoras, sob as ordens de um cavaleiro indigitado, têm como missão investigar a situação. Um noviço, cuja amada lhe fez o ultimato de partir com ela, oferece-se para guiá-los, já que ela o aguarda num local que fica em caminho. A viagem tem início.

Nesta aldeia não encontro a peste, mas também não encontro Deus, e por isso irão sofrer, ouve-se proferir o cavaleiro, e assim podem definir-se as intenções dos protagonistas. A Igreja Católica, especialmente em tempos de Santa Inquisição, era vil e vingativa. As palavras do seu Deus eram reinterpretadas à luz dos benefícios da Instituição e matar em seu nome era prolongar o domínio sobre aqueles que pagavam tributo, razão suficiente para perpetuar o medo e a subjugação. É, então, no fio da lâmina que o grupo se aproxima do seu destino, o qual irá revelar-se mais complicado do que previam.

Christopher Smith redefiniu o projecto, após a saída de Geoffrey Sax, embrenhando-se numa Idade Média putrefacta de modo intencional e decisivamente realista, fotograficamente próximo do fantástico Valhala Rising (Nicolas Winding Refn, 2009). Christopher Smith chegou directamente de três filmes de terror (Creep, Severance e Triangle) e instruiu Dário Poloni, guionista, a não se refrear nas questões mais delicadas, abordando o fundamentalismo religioso como uma parábola, pleno de desconfortáveis ambiguidades morais, a tornar evidente que, nos últimos 600 anos, não houve evolução nas mentalidades.

Black Death é uma obra de forte dramatismo, que nos imerge nas paisagens e na época histórica, mas nunca se esquece do suspense nem da acção, cujas erupções são intensas e brutais. O epílogo reserva-nos ainda uma inesperada surpresa e nem um segundo de descanso. No meio da barbárie, não há Deus nem Diabo, mas apenas o coração negro dos homens.

Entre O Senhor dos Anéis (2003) e a série Jogo de Tronos (2011), Sean Bean recoloca a armadura e empunha a espada, coisa que já faz de olhos fechados e também fez em Tróia (2004). Eddie Redmayne continua agarrado a papéis bizarros (Savage Grace – Desejos Selvagens, 2007) e com predilecção por produções de época (Elizabeth: The Golden Age, 2007, Duas Irmãs, Um Rei, 2008, e as mini-séries Elizabeth I e Tess Dos Ubervilles). Quanto a Carice Van Houten, não precisava que os seus estados de espírito fossem acentuados pelo exagero de maquilhagem, desde O Livro Negro (2006) que encanta os ecrãs.

Black Death 2010

0 Comments:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home

hit tracker