Terça-feira, Maio 10, 2011

Green Hornet, de Michel Gondry

O que o Libelinha (Super-Herói: O Filme, 2008) fez ao Homem-Aranha (2002) é o mesmo que Green Hornet, de Michel Gondry, faz à memória do verdadeiro Green Hornet. Mas a culpa não é do realizador, este já se tinha descrito como um facilitador, por ocasião da sua melhor obra, O Despertar da Mente (2004), a concretizar o que saíra exclusivamente da imaginação de Charlie Kaufman, guionista. Green Hornet é um veículo para Seth Rogen, protagonista e co-argumentista que, com Evan Goldberg, já tinha escrito as palhaçadas Super Baldas (2007) e Alta Pedrada (2008), tendo começado com buchas para o Da Ali G Show (série, 2004), mas nunca estivera por trás de nenhum super-herói.
Criação de George Trendle e Fran Stryker, Green Hornet ferrou as ondas hertzianas pela primeira vez em 1936, voando na década seguinte da rádio até ao grande ecrã e sendo aprisionado no pequeno durante a presidência de Lyndon Johnson, com comics mensais a acompanharem o seu percurso de 1940 a 1953. Green Hornet foi, segundo os seus autores, a modernização do Mascarilha, um seriado western da mesma estação de rádio de Detroit, com semelhanças ao Zorro, ao Fantasma e ao Sombra. O Batman só chegou em 1939, mas é curioso que ambos vigilantes sejam milionários mascarados, que saem à noite para fazer justiça nas ruas da sua cidade, viajando em bólides artilhados e com a ajuda de sidekicks.
Em 1966, as séries televisivas de Batman e de Green Hornet foram produzidas pelo mesmo estúdio. Enquanto o Cavaleiro das Trevas foi alvo do horror kitsch que permanece na memória universal, Green Hornet foi encarado sem artifícios, uma aventura de laivos policiais (com o lendário Bruce Lee no papel de Kato, o motorista do herói). Décadas mais tarde, as posições inverter-se-iam. Enquanto Batman se tingiu de negro, Seth Rogen decidiu dar toda a paleta de verdes a Green Hornet. De facto, ao contrário do Batman duro, frio e imponente da era Nolan, o Green Hornet agora adaptado ao cinema é uma triste e patética paródia aos seus tempos áureos. Faz lembrar o que Ben Stiller e Owen Wilson fizeram a Starsky & Hutch (2004).
A Miramax comprou os direitos do personagem em 2001 e Kevin Smith foi contratado para escrever e realizar em 2004 (Jake Gyllenhall seria o Green Hornet), mas a sua desistência fez estagnar o processo. A Universal comprou-o e entregou-o a Stephen Chow (Shaolin Soccer, 2001, e Kung Fu Hustle, 2004) que seria realizador e representaria Kato. Seth Rogen seria argumentista e o Green Hornet mas, ao ver-se ao espelho vestido à Spirit (2008), na opção verde, achou que chegava para o recado. Estava bêbado.
Está ainda por determinar quem terá tido a ideia inclassificável de contratá-lo, feio, gordo e sem piada, para o papel de super-herói. Rogen pode merecer compaixão quando faz de coitadinho, mas apenas porque é isso o que ele é, um pateta frustrado. Pô-lo a fazer de playboy, aventureiro ou herói é um travesti.
Seth Rogen não é, porém, o único erro de casting de Green Hornet. Os produtores devem ter achado que ter Cameron Diaz como secretária do super-herói seria o equivalente a Gwyneth Paltrow como assistente do Homem de Ferro (2008), mas foi um tiro na água. A maior resistência que Paltrow já deu a um criminoso foi deixar-se decapitar (Se7en, 1995), mas Diaz é uma super-heroína em nome próprio, não só enquanto a mais atlética dos Anjos de Charlie (2001), mas até como peão apanhado num jogo que a ultrapassa (Dia e Noite, 2010). Vê-la num papel tão secundário e sem a menor proeminência é empobrecedor e redutor.
Christoph Waltz, catapultado pela participação em Sacanas Sem Lei (2009) é outro erro de cálculo. O que Quentin Tarantino provou no seu filme foi que, ao fazer parte da máquina nazi, qualquer meia-leca pode ser ameaçador, independentemente do quão patético é individualmente. Christoph Waltz não tem estatura ou carisma para rei do crime.
Jay Chau, natural da formosa, é um cantor pop, dono de uma cadeia de restaurantes, de uma empresa de pianos e da discográfica JVR. Longe de fazer sombra a Bruce Lee, não desmerece como Kato, mas lamenta-se a sua visão à Terminator a identificar agressores e os efeitos visuais que enchem o ecrã durante as cenas de luta, camuflando as possíveis capacidades físicas do actor. Quanto à nacionalidade do personagem, é apresentada como chinesa, mas originalmente foi japonesa, passando por ocasião da Segunda Guerra Mundial a filipina e mais tarde a sul-coreana. Edward James Olmos dá rigor ao seu pequeno papel de editor-chefe da Gazeta, mas James Franco limitou-se a brincar, sendo evidente que nem sequer se preparou para o cameo que a amizade com Seth Rogen lhe garantiu.
Green Hornet é uma paródia medíocre ao género dos super–heróis, em vez de listar-se entre eles. No original, o director de um jornal diário combatia o crime ao lado do seu motorista, a bordo de um carro pesado com faróis verdes, com o nome do corcel Beleza Negra. Utilizava o cérebro, uma pistola atordoadora e as artes marciais do motorista oriental. Na nova versão, um milionário estúpido e mimado decide ser vigilante e o resto é demasiado vergonhoso para ser contado. Kato inventa todo o tipo de arsenal e engenhocas futuristas, o carro é um tanque de guerra, a pistola de dois canos de Bloodnofsky pindérica, as cenas de acção são anedóticas e a trama é naïf. Como maior absurdo, o facto do herói querer veicular, através do jornal online, uma prova gravada numa pen digital, e para isso ter de deslocar-se ao edifício da Gazeta, onde enfrenta um exército de bandidos (que estão, visivelmente, à sua espera) antes de conseguir chegar ao escritório e divulgar a prova; mas não poderia tê-lo feito de qualquer computador particular, em qualquer outra parte da cidade?
Green Hornet 2011

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