Terça-feira, Maio 24, 2011

Biutiful, de Alejandro González Iñárritu

Numa cidade onde o sol dourado pode entrar por todas as janelas, mas não chega para aquecer todos os lares, seguimos personagens destroçadas, partidas por dentro, marginais, fantasmagóricas, que lutam por harmonia mas só encontram formas de repelir-se. É impossível não sentir compaixão por estas existências que não têm onde agarrar-se e, por isso, acabam por cair no nosso regaço e encontrar apoio nos nossos corações.
A quarta longa-metragem do mexicano Alejandro González Iñárritu puxa-nos para o interior do seu buraco negro. Num desnorte que ignora o próprio desenlace, oferece retratos que calam a necessidade desesperada de uma mão, de uma saída, são miseráveis mas inerentemente bons, apesar das circunstâncias lhes rejeitarem a cicatrização da carne viva que habitam. A família, a doença, a imigração ilegal, o arrependimento e a culpa são elementos polvilhados num poema melancólico, feito de intimidade crua, de olhares que nos rompem a alma ao mesmo tempo que despem a sua, clamam por empatia e inclusão, apesar da sua imperfeição, ou por causa dela.
A dupla Alejandro González Iñárritu (realizador) e Guillermo Arriaga (guionista) foi responsável por Amor Cão (2000), 21 Gramas (2003) e Babel (2006), tendo-se separado por causa deste último, da mesma forma que Quentin Tarantino e Roger Avary após divergências sobre a autoria de Pulp Fiction (1994). Biutiful não é suficiente para separar o trigo do joio, tanto mais que Iñárritu cruzou esferográficas com Armando Bo e de Nicolás Giacobone, mas isso não pesa no resultado final. 
Barcelona é filmada como realidade sonhada, presente e imaginada, visão pesada de uma câmara cuja fotografia se distancia quanto mais foca, e Gustavo Santaolalla equilibra gravidade e leveza nas cordas da guitarra. 
Javier Bardem, com o filme dentro dele projectado pelo olhar, é uma ferida aberta, um homem em rota de colisão, órfão de pai que quer estar presente no crescimento dos seus filhos, mas sabe que o fim está dolorosamente perto e o tempo urge, mas se lhe escapa por entre os dedos, como se não o merecesse. É aqui que Bardem é mais forte, em papéis desta magnitude, de uma intensidade comparável aos de Reinaldo Arenas de Antes de Anoitecer (2000) e Ramón Sampedro de Mar Adentro (2004), não nos soporíferos Vicky Cristina Barcelona (2008) e Comer Orar Amar (2010). 
A argentina Maricel Alvarez, actriz de teatro, produtora e coreógrafa, também não vira as costas a uma interpretação visceral e arrebata-nos desde a primeira súplica, a braços com uma personagem cuja bipolaridade poderia desmanchar-se em mãos com menos garra.
Biutiful 2010

3 Comments:

Blogger Sam said...

Gostei muito!

Excelente texto.
Cumps cinéfilos.

5/24/2011 4:57 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

obrigado, são filmes assim que puxam pela minha escrita. até à data, o melhor filme de Iñarritu. amores perros tinha uma história central muito forte, mas as duas outras eram bastante mais fracas, ficando um objecto desequilibrado. Biutiful é contido e solto, resulta perfeito.

5/24/2011 5:08 PM  
Blogger Sam said...

Continuo a considerar o Amores Perros como o melhor filme do Iñarritu. Mas sim, reconheço que Biutiful não anda longe desse estatuto.

5/24/2011 6:09 PM  

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