Um Ano Mais, de Mike Leigh

Um ano na vida de uma família e amigos. Estudo desapaixonado e melancólico sobre a idade, a solidão e a morte, com o possível prolongamento através dos filhos. Cumulação de olhares furtivos em ambientes de desespero calado, com diálogos de torneira aberta ou a conta-gotas, conforme a motivação dos personagens, sempre a um passo da desilusão e das lágrimas. E sabemos que a tendência é para que o quadro se torne mais negro, porque o filme está dividido em fatias estivais, a caminho do Inverno.

Mike Leigh perdeu a esperança de mudar o mundo. Em 1988, Altas Ambições era um retrato positivo, mas desde então os seus filmes têm amargado a desilusão do destino britânico. Abordando temas como a cor da pele (Segredos e Mentiras, 1996), o aborto (Vera Drake, 2004), os sem-abrigo (Nu, 1993), o desemprego e o alcoolismo (Tudo Ou Nada, 2002), Leigh pinta a condição humana como uma natureza morta impressionista.

Desta vez, a ideia central parece ser a da família, de que é o amor e a coesão desse grupo que permitem que se chegue à idade madura com algum conforto e se possa olhar com um sorriso tanto para o passado como para o futuro. Resignação é tudo o que aguarda os restantes, aqueles que não tiveram a sorte de encontrar a felicidade quando ainda era tempo.

Mais contemplativo do que os anteriores filmes de Leigh, Mais Um Ano consegue contornar os tempos mortos, mantendo a placidez. É a sexta vez que a harpa de Andrew Dickson compõe para ele, que se encontra em casa com os actores do costume. Leslie Manville é razão suficiente para assistir a esta ode, mas a curta prestação de Immelda Staunton tem também uma força enorme (à pergunta «Para além de ter sono, diga-me outra coisa que poderia mudar a sua vida», é dada a resposta impressionante: «Outra vida»). Jim Broadbent, Peter Wight e Ruth Sheen são o resto da mobília.

Another Year 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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