A Última Noite, de Massy Tadjedin

A Última Noite é um ensaio sobre o tema da traição e do ciúme, que se interroga se estes, de tão intrinsecamente humanos, serão inerentes a todos os relacionamentos. Parte do princípio de que o público já está familiarizado com os sentimentos referidos e, por isso, nunca os aborda directamente, servindo-se de insinuações, e conclui pela inevitabilidade da atracção por terceiros, quer se aja no sentido da consumação ou se fique no reino da fantasia. A ocasião não só faz o ladrão, como o infiel.

Numa festa, a esposa de um arquitecto desconfia que o marido esteja envolvido com uma colega de trabalho, pelo mero facto de este não lhe ter contado que ela era atraente. Em privado, o marido rejeita veementemente as acusações. Na noite seguinte, marido e mulher irão ser sujeitos à tentação. Ele, em viagem de negócios com a dita colega, ela porque reencontra um ex-namorado que não vê há dois anos. Qual deles, se algum, resistirá mais tempo?

Pela boca, morre o peixe. Cimenta-se a ideia da hipocrisia na desconfiança, através da mentira nas pequenas inconsequências. As mulheres (no caso, quem deita a primeira pedra) não são ciumentas porque acham que todos os homens são capazes de trair, mas porque elas próprias estão sempre a um passo de sucumbir ao apetite da sedução.

Não fique, porém, a sensação de que estamos perante um trabalho de psicologia aplicada, de análise e dissecação das reacções, receios e realidades da relação monogâmica. Somos, sim, obrigados a assistir a uma lenta dinâmica de provocações banais, cascas de banana básicas, evidentes e evitáveis. Sem originalidade no tema ou na abordagem, fica a autópsia a uma relação frustrada, sem nada que a suporte por baixo da capa. Dúvidas infundadas? Dê-se-lhes tempo, parece dizer a argumentista, pela primeira vez atrás das câmaras.

A iraniana Massy Tadjedin filmou um drama pretensioso e vazio, sem alma, que não se aguenta à superfície porque não tem nada por baixo a suportá-lo. Move-se no mesmo esquema de Closer (2004), mas sem a menor eficiência. Do aborrecimento das imagens, questionam-se as ideias presentes, especialmente a pedestre manipulação dos limites até aos quais se pode esticar a fidelidade. Zalman King, o rei do erotismo televisivo dos anos 90, teria carregado na sensualidade e na sedução, podendo esse ser um possível escape para o que, nas mãos de Massy Tadjedin, não passa de um cubo de gelo. Uma banda sonora nas unhas de Ludovico Einaudi também não teria magoado.

Os quatro protagonistas têm nacionalidades diferentes (a britânica Keira Knightley, o australiano Sam Worthington, o francês Guillaume Canet e a norte-americana Eva Mendes), mas não parece haver aproveitamento desta pluralidade para além da riqueza dos sotaques. Worthington é o mais inexpressivo do lote, prejudicando a credibilidade do seu personagem. Filmado em 2008, A Última Noite apenas chegou às salas em Novembro de 2010.

Last Night 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
2 Comments:
Andava á procura de saber se também tinhas realizado uma review a este magnifico Last Night (8,5/10)... e afinal tinhas mesmo uma aqui.
Quanto à critica, acho que fazes sentido ao seres coerente contigo mesmo. Trabalhas bastante mesmo! (Eu sou um malandrão mesmo! Mas deste fiz uma review até... mas não recomendo a leitura a ninguém. Muito mal escrito e no sentido oposto da tua... por isso mesmo duplamente não recomendo.)
Digo que o "Closer" é um bom filme mas nunca me encantou absolutamente (os gajos não me dizem nada e as duas actrizes não lhes tenho grande empatia).
Obs: fogo, é super complicado descobrir um filme no teu espaço - e usar os nomes só em português... é um opção questionável. Tive de usar um função do browser Safari, e fazer uma pesquisa por uma das palavras do título... uma listinha alfabética. Contudo, fazes-me perceber que ao usar somente na minha listagem os títulos originais muita gente pode não os descobrir também... tenho de reavaliar a lista também.
Quanto aos títulos dos filmes, optei por colocar o título português no título do post e o título original ao fundo, por baixo da última foto, em letras pequeninas e itálico. assim, quem pesquisa pelo nome tuga ou original, chega sempre lá.
o blogger às vezes é que trabalha mal, não encontra títulos com alguns anos de existência, por alguma razão. por isso, uma vez por outra, vou lá clicar nos links, para que o blogger os traga à superfície.
pois, quanto à coerência, podes sempre contar com ela. ou os actores me mostram sentimento, ou para debaixo do tapete com eles. aqui, temos um filme sensaborão sobre o amor e a traição e isso simplesmente não pode ser.
e o sam worthington é um péssimo actor. handsome, mas péssimo actor.
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