Sexo Sem Compromisso, de Ivan Reitman

Aparentemente, não é tão difícil tirar o cérebro a Natalie Portman como pôr um no oco Ashton Kutcher. Para compensar a frigidez e intensidade de O Cisne Negro (2010), a actriz decidiu experimentar o oposto. Ter, numa comédia romântica, uma relação baseada exclusivamente em encontros sexuais. Fazer figuras tristes e humilhar-se como actriz, objectivos também alcançados.

Produtor e realizador, Ivan Reitman tem sido um nome confiável no campo da comédia, mas a sua centelha extinguiu-se no século passado. Os Caça-Fantasmas (1984 e 1989), Gémeos (1988), Polícia no Jardim Escola (1990) e Seis Dias E Sete Noites (1998) são os seus melhores títulos. Evolução (2001) e A Minha Namorada É Um Super-herói (2006) os seus últimos estertores.

Natalie Portman faz de médica-estagiária e Ashton Kutcher de assistente de produção de TV. Os dois têm uma one morning stand e decidem tornar o exercício numa actividade regular, estabelecendo regras para não se envolverem sentimentalmente. No plano concreto, a personagem de Natalie decide tudo e a de Ashton, molenga, vai pelo beicinho. É a isto, aliás, que o actor habituou o seu público, mas custa ver Natalie descer ao mesmo nível. A protagonista é, aliás, apresentada com pinceladas tão grosseiras que o serviço que poderia ter prestado ao movimento feminista é deturpado pelas características de cabra. Em vez de ser empática (querer sexo sem compromisso não é um defeito, mas uma opção), a personagem é egocêntrica, empertigada, cínica e emocionalmente desligada, tratando o «companheiro sexual» como um animal de estimação, a quem se liga apenas quando convém.

Não seria tão mau se pudesse dizer-se que o filme perde a frescura quando a relação se torna mais séria (e, inevitavelmente, torna-se), porque não há leveza ou fluidez desde o já renitente início. Os personagens de Natalie e Ashton não têm a menor faísca; ela é uma control freak e ele um introvertido balbuciante; os diálogos entre ambos são forçados e sem inspiração. É como se o Cupido os tivesse flechado por engano e se recusasse a reconhecer o erro, obrigando-os a ficarem juntos, independentemente das suas incompatibilidades. A meio, é introduzida outra personagem, interpretada por Lake Bell: alta (Natalie é completamente desproporcionada para Ashton) e sub-repticiamente sexy no seu visual de bibliotecária trapalhona, é muito mais a cara-metade de Ashton e está apaixonada por ele (ela, aliás, faz parte da Team Diaz, tendo entrado em Loucuras Em Las Vegas, 2008, com Ashton e Cameron, outra muito mais adequada ao Ashton). Contudo, em vez de optar por esse caminho mais lógico, o argumento insiste em juntar o casalinho com o ordenado mais chorudo, dê lá por onde der. Lake Bell, fica a referência, está espectacular.

Sexo Sem Compromisso é um tema que está em voga. Primeiro surgiu em O Amor É O Melhor Remédio (2010) e a seguir vem Amigos Com Compensações (Friends With Benefits, 2011). Claro que não poderia falar-se em romance se os casais não se apaixonassem, por isso todas estas comédias vão dar ao mesmo: uma relação puramente sexual acaba por despertar sentimentos. O que é louvável, porque as cautionary tales, até há pouco tempo, eram bem mais castradoras. Claro que as regras mudaram, como pode ouvir-se em Gritos 4 (Wes Craven, 2011): agora nem as virgens têm a garantia de chegarem ao final do filme.

Sexo Sem Compromisso tem pontos bastante baixos, que começam na escolha de Ashton Kutcher para protagonista, o que funciona como aviso automático para a displicência do material. Natalie Portman poderia assegurar o equilíbrio, mas o argumento não lhe dá oportunidade. Os momentos mais embaraçosos são tratados com pata pesada e os restantes com enfado; as piadas são poucas e sem timing e os enredos secundários tratados com desapego, não só o do pai sair com a ex-namorada de Ashton, mas especialmente o remate à trama com Lake Bell. Isso não impede que o filme seja ocasionalmente divertido ou se perca a oportunidade de referenciar pérolas como o seguinte argumento, que nunca imaginei que pudesse ser usado como arma: «Tu és o gajo que ela fornica sempre que tem necessidade de uma queca, mas eu vou ser o tipo com quem ela vai casar». O veterano Kevin Klein tem direito a algumas graçolas, mas Cary Elwes quase não abre a boca.

No strings Attatched 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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