Quarta-feira, Abril 13, 2011

Sanctum, de Alister Grierson

As grutas povoam o imaginário humano desde há muitos séculos. Esconderijo de eleição para os tesouros de piratas e quarenta ladrões, viram-se abandonadas pela sétima arte até à febre de 2005: Neil Marshall dedicou-lhes algo próximo da obra-prima (A Descida), Bruce Hunt algo inane (A Caverna) e Olatunde Osunsanmi fez outra coisa qualquer (WithinA Gruta). O ponto em comum nestas três películas é aproveitarem o cenário natural, misturando spelunking e monstros. Se O Tubarão (1975) tinha afastado meio mundo dos oceanos, quem é que quer ser apanhado num local sinistro, claustrofóbico, apertado, fechado, escuro, irrespirável e com secções inundadas?
O explorador subaquático Andrew Wigh, colaborador de James Cameron nos documentários Ghosts of the Abyss (2003) e Aliens of the Deep (2005), contou-lhe à fogueira uma das suas histórias de sobrevivência. Cameron achou que só lhes faltava um realizador, mas o facto de não se ter proposto para o cargo é prova da sua indiferença. Em substituição, foi escolhido o inexperiente Alister Grierson, com uma única longa-metragem no currículo (Kokoda, 2006), conterrâneo do australiano Wigh. Para ajudá-los com a história, contratou-se John Garvin, que nunca publicara uma linha na vida. Estava encontrada a fórmula para o desastre.
Com imagens aéreas filmadas em Papua Nova Guiné, mas grutas amassadas em estúdio, Sanctum é tão mal temperado que, não só não nos importaríamos com a morte de toda a expedição, como torcemos por esse fim. Os actores são apagados (Richard Roxburgh e Ioan Gruffudd serem os nomes mais conhecidos é prova do desleixo), os personagens são tudo menos empáticos e a acção não tem um único momento alto. Perdem-se membros da equipa como quem larga lastro, mas a reacção do público é o bocejo. Há gente em cujas mãos não devia ser colocada uma câmara, especialmente uma que não sabe operar. Sim, são as câmaras 3D desenvolvidas pelo próprio James Cameron, mas não há enquadramento, ideias, objectivo. Há apenas meia dúzia de planos a filmar e um grupo de tarefeiros à espera.
Sanctum cortou nos monstros, mas não deixou ficar grande coisa. Do drama humano, não sobraram nem vestígios. Com 127 Horas (2010), Danny Boyle mostrou, pelo menos, que era possível fazer um filme sobre cavernas passado à superfície. Sanctum não descobre nada onde inovar, acarinhar ou impressionar. E ainda encontra maneira de ser sexista: as mulheres da excursão são as mais fracas, a morrerem quase sem resistência, uma delas até sendo morta pela vaidade, já que é vitimizada pelos cabelos, que se prendem ao equipamento.
Sanctum 2011

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