Quarta-feira, Abril 06, 2011

Quem Matou O Carro Eléctrico, de Chris Payne

Mais uma vítima do capitalismo cego americano. O automóvel movido a electricidade é económico, silencioso, vistoso e não poluente. Não seria uma alternativa viável? Não poderia marcar uma reviravolta nas emissões diárias de CO2 para a atmosfera? Então, porque não o vemos nas ruas de todo o mundo? Porque não existe.
Contudo, o carro eléctrico já teve dois fôlegos. No início do século XX, coexistiu com o automóvel movido a combustíveis fósseis e era considerado elegante e prático, já que podia recarregar-se em casa. Contudo, nos anos 20, o motor de combustão e o baixo preço da gasolina puseram-no fora da corrida. Setenta anos depois, voltou a ser uma realidade. Então, o que lhe aconteceu?
Obra de engenharia da General Motors, o carro eléctrico foi introduzido no mercado norte-americano em 1990, primeiro em exposições do ramo e finalmente em stands da Califórnia, onde se situou a fábrica encarregada de desenvolver o projecto. O EV1, como ficou chamado, fez sucesso imediato entre as celebridades de Hollywood, chegando a ser mencionado, por exemplo, por Tom Hanks, no programa de Jay Leno, como a sua contribuição para salvar o planeta. Mel Gibson, Peter Horton, Ed Begley Jr. e Alexandra Paul foram outras estrelas que tiveram a oportunidade de alugá-lo, porque o veículo, na sua fase experimental, não estava disponível para aquisição permanente. E nunca chegou a estar.
A princípio, o futuro do carro eléctrico assumia-se brilhante. Era o único que cumpria uma lei que a Air Board of Califórnia se preparava para aprovar: que todas as construtoras de automóveis com comércio no Estado providenciassem veículos sem emissão de gases tóxicos. O EV1 era completamente verde e, apesar de não ser barato no momento da aquisição, encarregava-se de ficar económico, por funcionar com baterias recarregáveis em casa e o seu motor ser praticamente uma peça, não exigindo mudança de peças, óleo ou filtros com a mesma regularidade que os restantes. Além disso, a produção em massa iria permitir custos mais baixos e assegurar uma descida dos preços.
Mas, as reacções negativas não tardaram a surgir. Associações de cidadãos mostraram reserva em relação à implantação de estações de abastecimento eléctricas, tentando lançar o alarme. Analisadas as listas desses grupos de pressão, não passavam de fachada para empresas petrolíferas. A par dessa manobra dissimulada, outras medidas prejudiciais foram tomadas. A Móbil, por exemplo, pagou editoriais e anúncios na imprensa, a manchar o nome dos carros eléctricos, chegando a acusar os benefícios ambientais de dúbios, por essa energia provir do carvão, cujas fábricas libertam gases para a atmosfera. Claro que é muito menos poluente que as refinarias de petróleo, mas o importante era instalar a dúvida.
Os lobbies foram tão agressivos que a Air Board of Califórnia, que tinha passado a lei de emissão zero de CO2, negociou a sua flexibilização com os fabricantes de automóveis, em vez de obrigá-los a cumpri-la. Ficou estipulado que só teriam de construir veículos não poluentes de acordo com a medida da procura do público. Esfregando as mãos de contentes, as empresas encarregaram-se de boicotar o carro eléctrico: para provarem a inconsistência da procura, assustaram os interessados.
A própria GM, em vez de promover os EV1, despediu os investigadores do projecto e fechou a fábrica que os construía. Publicitou-os de forma baça e informou exaustivamente os potenciais clientes das limitações do produto, em vez das suas vantagens. No final do período inicial de aluguer, recolheu os veículos, sem dar a hipótese aos clientes de renovarem o contrato. E conduziu-os à matança, transformando-os em cubos de metal, para que desaparecessem da face da Terra. 
A Casa Branca de George W. Bush cumpriu a sua parte de furar os pneus ao EV1. Atribuiu uma soma milionária à pesquisa de células de hidrogénio como fonte de energia alternativa viável (fonte, convém frisar, indisponível no presente e que ficará sempre mais cara do que a energia eléctrica já existente) e aprovou benefícios fiscais muito mais vantajosos a quem comprasse Hummers, veículos gigantes a gasolina que consomem de acordo com o seu peso. O consumidor, face às facilidades dadas ao Hummer e às complicações envolviam o EV1 como uma nuvem negra, era conduzido como uma criança ao veículo recomendado.
É lícito concluir que o carro eléctrico foi uma ideia que os financiadores do protótipo nunca quiseram que saísse do papel. Quando ganhou tridimensionalidade e fez sombra ao gigante poluente, abafar a concorrência tornou-se a ordem do dia. A Casa Branca inventou uma nova quimera (a célula de hidrogénio) e as corporações que dependem dos combustíveis fósseis (petrolíferas e indústria automóvel) manipularam a opinião pública e boicotaram o novo veículo. Hoje, poucos se lembram da sua existência.
Mas, porque convém lembrar os interesses por trás desse passe de magia negra, torna-se um filme imprescindível. De forma consciente, detalhada e bem documentada, apresenta o seu caso, denunciando a situação e demonstrando que o chocante móbil por trás da destruição do carro do futuro foi estritamente financeiro e especulativo. Com narração de Martin Sheen, duas vezes Presidente dos EUA, Quem Matou O Carro Eléctrico? dá que pensar. Já que não se pode conduzi-lo.
Who Killed The Electric Car 2006

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