Complexo – Universo Paralelo, de Mário Patrocínio

Documentário sobre o impressionante Complexo do Alemão, um labirinto que se estende por quase vinte mil habitações e perfaz uma autêntica muralha na zona norte do Rio de Janeiro, a 13km do Cristo Redentor. Neste aglomerado de treze favelas, os portugueses Mário (realizador) e Pedro Patrocínio (director de fotografia), filmaram durante três anos, na medida do possível e com a autorização do narcotráfico local, depoimentos num enquadramento que reforça a paz e não a tensão de um lugar que foi alvo de intensas cargas policiais e militares, um processo de limpeza que se saldou com mais de uma centena de mortos.

Complexo é uma visita guiada à morada de 300 mil pessoas, isolada da cidade de postal ilustrado pelo estigma e pela pobreza, mas que tenta conservar a alegria de viver, face à adversidade da miséria. Mário Patrocínio tinha acabado de chegar ao Rio de Janeiro, onde o seu irmão estudava cinema há seis meses, quando lhes foi proposto que ajudassem na realização do videoclip de um rapper da favela, MC Playboy. Corria o ano de 2005.

O filme, propriamente dito, só começaria a ser rodado em 2007, depois de os irmãos terem desesperado por patrocínio e se terem visto na necessidade de auto-financiarem-se. Ninguém apostou no seu projecto, que pretendia mostrar a favela de dentro para fora, o seu quotidiano de paz, de nessidades, de gente comum que tenta manter um sorriso face às pesadas adversidades da miséria. No final, cingiram-se a três entrevistados. O MC Playboy (as rimas do rapper descrevem os sonhos de fortuna dos habitantes da favela), o Seu Zé (presidente da associação de moradores), Dª Célia (uma mãe de família desempregada, que vive com a fé de Cristo e as dificuldades de todos) e alguns jovens traficantes (no epílogo, é revelado que, por ocasião da montagem, estão todos mortos, menos um que andará a monte).

Com imagens de inegável beleza, Complexo opta por um ambiente calmo, pacífico, etéreo, quase irreal da favela, registando as cores das fachadas e os sóis que não deixam de pôr-se no morro. Apenas parece estranho que, de um convívio quase diário que os responsáveis dizem ter tido com a favela, se tenham cingido a tão poços intervenientes. Seria de supor que teriam muito mais testemunhos.

Complexo – Universo Paralelo 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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