Invasão Mundial: Batalha Los Angeles, de Jonathan Liebesman

Imagino que o filme tenha como público-alvo os patriotas iraquianos e os seus congéneres no Médio Oriente, porque esta invasão extraterrestre a Los Angeles é análoga à que sofreram na pele. Uma força militar inimiga e mais avançada tecnologicamente surge do nada para roubar os seus recursos naturais, servindo-se das instruções da patenteada doutrina norte-americana Shock and Awe. Atarantado, um batalhão de fuzileiros deambula pelos destroços da cidade, confuso e lamentoso, incapaz de responder adequadamente ao ataque e a sofrer baixas a cada minuto que passa. É o suficiente para os cinéfilos de Bagdad atirarem pipocas ao ecrã, brindando a derrota das tropas do Tio Sam, a destruição da Meca de Hollywood e, quando estes finalmente revidam e rechaçam os aliens, um lembrete de que também no seu país os americanos conheceram dificuldades, apesar da clara supremacia militar.
Mistura de Dia da Independência (1994) e World Trade Center (2006), Batalha: Los Angeles falha miseravelmente no campo do entretenimento e deixa as costuras à mostra. Pois é, ninguém gosta de ser invadido, é só para experimentarem. O belicismo norte-americano necessita constantemente de novos inimigos, seja forjando provas contra eles ou inventando-os no espaço. Já enjoa.

Como muito bem documentou Stephen Kinzer no seu livro Overthrow: Um Século da América a Mudar Regimes, os EUA orquestraram ou encorajaram golpes de Estado pelo mundo fora, responsáveis por intervenções no Havai, em Cuba, Porto Rico, Filipinas, Nicarágua, Honduras, Irão, Guatemala, Vietname do Sul, Granada, Chile, Panamá, Afeganistão e Iraque. Estes atentados à soberania de países que nada lhes deviam foi sempre motivada pela ganância e resultou em regimes totalitários e ditatoriais que melhor serviram as suas intenções imperialistas.

Por isso, na conjuntura actual, torna-se especialmente difícil tomar o partido, sem reservas, dos EUA em conflitos armados, verdadeiros ou inventados, e simpatizar com os seus homens de uniforme como se fossem sempre os bons. Batalha: Los Angeles não se esforça por dar uma única justificação para nos ralarmos com os seus soldadinhos de chumbo, que o argumento trata como meros alvos de cartão.
Neste género de filme, Cercados (Ridley Scott, 2001) conserva o lugar no pódio. Poderoso no enquadramento visual e sonoro (uma excelente banda sonora de Hans Zimmer), humanizava os soldados e fragilizava-os ao ponto de nos preocuparmos com a sua sina. Claro que o seu ano de produção é anterior ao da Guerra no Iraque. Jogo Limpo (2010), ainda que seja um filme menor, ajuda a cimentar a perspectiva do que mudou na forma como os EUA passaram a ser encarados na sua auto-imposta função de Polícias do Mundo. A adulteração de provas e a manipulação da opinião pública não abonam em seu favor, e as consequências alastram para a forma como é encarada a sua produção cinematográfica, autêntico vírus disseminado pelo globo, e os falsos pressupostos que a alimentam.

Batalha: Los Angeles esforçou-se por apresentar um plantel livre de heróis. Ao contrário dos mercenários de Stallone (Os Mercenários, 2010), o batalhão não arregaça mangas musculadas nem expõe belezas platinadas. Aaron Eckhart já ajudou o planeta a continuar a girar (Detonação, 2003) e Michelle Rodriguez esteve do lado da tribo de pele azul (Avatar, 2009), mas nem a música de Brian Tyler (Velocidade Perigosa III, IV e V) foi capaz de dar-lhe alma. Los Angeles em escombros está irreconhecível e a acção é tão terra-a-terra que mais parece uma missão no Iraque. O argumento de Christopher Bertolini (A Filha do General, 1999) é muito pobre e nenhuma das reviravoltas suplanta o mais vulgar jogo de consolas de shoot ‘em up. Inacreditável é também a forma como os soldados descem de helicóptero a coberto da noite, dão meia dúzia de tiros num subterrâneo e saem para um dia já radiante. O design dos monstros e das naves espaciais desilude pela falta de originalidade, de imaginação e sobriedade. Os irmãos Strause, que contribuíram para a equipa dos efeitos visuais e correram a fazer o seu próprio filme de invasão extraterrestre (Skyline, 2010) não se portaram pior, com um décimo do orçamento.

A exposição sobre a natureza manipuladora do Governo Norte-americano ganha ainda mais relevância se recordarmos que o filme anterior de Jonathan Liesbesman, The Killing Room (2009), se prende com as experiências secretas conduzidas pela CIA em cidadãos americanos, conhecidas como projecto MK Ultra. E o pior é que estes programas secretos de tortura behaviorista existiram mesmo. Muito superior e a revelar a natureza belicosa norte-americana como um defeito de carácter está Monstros (2010), do inglês Gareth Edwards.

Battle: Los Angeles 2011
O Evangelho Segundo Cinéfilo


4 Comments:
Fraco. Muito americano. E achei a vitória muito fácil :S
péssimo. pareciam os americanos no iraque, só a fazerem asneiras. e a morrerem como tordos e a chamarem-se de heróis. a dissecação do alien podia ter sido muito mais interessante. os aliens eram muito pouco originais.
o Dia da Independência é muito melhor.
Concordo. A ver se saco o Dia da Independência, para rever.
os realizadores do Skyline são técnicos de F/X deste filme que a seguir foram rodar o filme deles. é tão bom um como o outro ...
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